"Outono no Sudeste"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: MPB, Samba, Jazz
Para quem gosta de: André Abujamra e Tom Zé
Ouça: Tudo Tinha Ruído e A Mais (Rubião Blues)
Nota: 8.5

Resenha: “Outono no Sudeste”, Maurício Pereira

Pra que caneta, papel? / A poesia hoje não apareceu / E as rosas / Na floricultura / E os pássaros / Na gaiola … Eu não sei se o amor existe / Eu sou um homem triste“. Em tom sóbrio, o canto melancólico de A Mais (Rubião Blues), faixa de abertura de Outono no Sudeste (2018, Independente), indica parte do caminho percorrido pelo cantor e compositor paulistano Maurício Pereira no 7º álbum de inéditas em carreira solo. Versos descritivos, ora cantados, ora declamados, como se cada elemento espalhado pelo cotidiano do artista fosse observado de maneira atenta e transformado em música.

Um windows ligando lá longe / Passar a noite em claro roendo unha / Com a luz apagada / Chorar baixinho no escuro / Com o despertador armado em seis e meia“, canta em Tudo Tinha Ruído, música em que passeia por entre cenas (“A primeira lasca do iceberg / Que o Alasca um dia rachará“), personagens (“O coração da moça que partiu / Sozinha no último metrô“) e acontecimentos mundanos (“A mãe de um nenê que chora / Anda e canta zonza com ele no colo“) que se conectam pelo som. Pequenas narrativas visuais que se permitem montar na cabeça do ouvinte, fazendo de Outono no Sudeste uma obra que parece maior a cada nova audição.

Exemplo disso está na lenta construção de Mulheres de Bengala, música em que transforma um encontro aleatório no centro de São Paulo em um ato grandioso, hipnótico. “Toc, toc, toc / Uma mulher de bengala/  Passa depressa do meu lado / Ela tem a cintura dura / E joga a cabeça dum modo intrigante / Um modo / Um modo talvez atraente“, canta em um colorido jogo de palavras que se conecta diretamente à base da canção. Um verdadeiro labirinto sonoro e poético, cuidado que se reflete na faixa-título do disco ou mesmo na apaixonada Piquenique no Horto (“Que tarde tão agradável / Passou e a gente nem viu / Me distraí nos teus braços / Os beijos, pra lá de mil“).

O mesmo preciosismo na composição dos versos ecoa com naturalidade na formação dos arranjos. Para além do som torto que vem explorando desde o debute Na Tradição (1995), ou mesmo na curta discografia d’Os Mulheres Negras, Pereira se concentra na produção de uma obra musicalmente homogênea. São melodias delicadamente ancoradas no jazz, samba e soul, cuidado que se reflete desde a faixa de abertura do disco, A Mais (Rubião Blues), e segue até a derradeira Uma Pedra, faixa que cresce em meio a ondulações melancólicas, reforçando a dor detalhada nos versos (“Sou só / Estou só / Fui criada solta / À beira de qualquer caminho / O pó da estrada é a minha maquiagem“).

Parte dessa estrutura vem da forte interferência do Gustavo Ruiz como produtor do disco, além, claro, do expressivo time de instrumentistas que acompanha o cantor durante toda a execução da obra. Seja nos instantes de maior recolhimento, vide a delicada Cartas pra Ti, ou nos momentos de vívida euforia, como em FloridaOs Amigos ou O Coração É Um Órgão, perceba como Outono no Sudeste em nenhum momento se distancia de uma mesma base instrumental, como se cada elemento do álbum servisse de base para a faixa seguinte.

São pianos complementares e a linha de baixo sempre destacada, guitarras e instrumentos de sopro, como o habitual saxofone de Pereira, e até mesmo as vozes dos filhos Chico Bernardes, Manuela Pereira e Tim Bernardes, colaboradores em diversas faixas ao longo da obra. De fato, é necessário tempo até perceber todas as nuances e frações minimalistas que se espalham por entre as brechas do trabalho, como se o músico paulistano brincasse com a lenta sobreposição de ideias, preferência que se reflete na imagem de capa do disco, assinada por Biba Rigo. Uma coleção de pequenos acertos que vai da poesia descritiva ao menor fragmento instrumental.

 


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