"Outro Lugar"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Folk, MPB, Dream Pop
Para quem gosta de: Gal Costa e Arrigo Barnabé
Ouça: Outro Lugar e Elétrico Beijo
Nota: 7.7

Resenha: “Outro Lugar”, Tetê Espíndola

Não se deixe enganar pelo visual transformado e cores fortes que estampam imagem de capa do novo álbum de Tetê Espíndola. Em Outro Lugar (2017, Independente), 18º registro de estúdio da cantora e compositora sul-mato-grossense, todos os elementos que originalmente apresentaram o trabalho da artista no início dos anos 1980 estão de volta, sutilmente resgatados e espalhados pela obra. Um som conceitualmente bucólico, doce, como a passagem para um refúgio sentimental e poético.

Primeiro registro de inéditas da cantora em três anos, o sucessor de Asas do Etéreo, lançado em 2014, mostra Espíndola em uma delicada zona de conforto. Gravado em sua maioria na cidade de Campo Grande, casa da artista, também em São Paulo e, posteriormente, finalizado em Paris, com a ajuda do músico francês Philippe Kadosch, o registro de 12 faixas flutua em meio a paisagens conceituais, ambientações acústicas e melodias acolhedoras, como a lenta montagem de um ambiente próprio da artista.

Não sou daqui / Nem sou de lá / Sou sempre de outro lugar … Mais interior / Por esse amor afora / No seu abraço / De sabiá e amora“, canta na delicada faixa-título do trabalho, composição originalmente composta pelo músico Arnaldo Black. Sussurros intimistas que se espalham em meio ao dedilhado tímido de uma viola, pintando um colorido pano de fundo instrumental, base para a também bucólica Lamber Correnteza — “É prazer de ser água / É um ser que me afaga / Na memória de um rio / É canoa, estrada sem fim“.

A mesma leveza e cuidado na formação dos versos se reflete em Itaverá (“É cavalgando num cavalo sem asas / Que vou buscar a pedra que brilha“) e Aconchego (“Travesseira pra ter sonho / Sobre nuvens que vem lá dos confins“), músicas de essência sertaneja, ora capazes de refletir a alma, sonhos e confissões intimistas do eu lírico, ora capazes de transportar o ouvinte para um cenário interiorano, talvez mágico. Um cuidado que ultrapassa o limite dos versos e acaba se refletindo na base instrumental do disco, sempre minimalista, precisa.

Surgem ainda músicas como Elétrico Beijo (“Me traz a sensação / Felicidade existe / Não é só um sonho / Elétrico beijo“), um som denso, provocante, como uma fuga da atmosfera campestre que orienta grande parte da obra. Em Onda do Tempo, sexta faixa do disco, um samba melancólico que reflete sobre as transformações e a passagem do tempo (“Foi uma imagem corrente / Na tela me transportou / Hoje, passado é presente“). Entre vozes carregadas de efeito, a psicodelia de Anjo Só, composição que ainda dita o tom onírico da faixa seguinte, a cósmica Bodoque.

Cercada de velhos colaboradores, como Arrigo Barnabé em Luz e Anzol, Marta Catunda em quatro composições do disco, e até pela filha, Patrícia Black, responsável pelo ensaio fotográfico que acompanha o delicado encarte do disco, trabalho de Uibirá Barelli, Espíndola finaliza Outro Lugar como um de seus melhores registros em anos. Como tudo aquilo que vem sendo produzido pela cantora desde o início da carreira, um registro feito para ser apreciado sem pressa, com ouvidos sempre atentos.

 

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