"Oxnard"

Ano: 2018
Selo: Aftermath / 12 Tone
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Kendrick Lamar e Dr. Dre
Ouça: Anywhere, 6 Summers e Headlow
Nota: 7.5

Resenha: “Oxnard”, Anderson .Paak

Longe de qualquer expectativa, mergulhado no som empoeirado dos anos 1970, 1980 e 1990, Anderson Paak acabou encontrando a base criativa para o rico universo musical que abastece as canções de Malibu (2016). Segundo álbum de estúdio do rapper norte-americano e primeiro trabalho a conquistar a atenção de uma parcela maior do público e crítica, o registro que vai das rimas ao canto cristalino do soul estabelece no recém-lançado Oxnard (2018, Aftermath / 12 Tone) um claro desdobramento estético. Melodias e versos que continuam a apontar para o passado, conceito que vem sendo explorado pelo artista californiano desde o início da carreira.

Com título inspirado na cidade onde Paak nasceu, Oxnard completa a trilogia de obras litorâneas inaugurada durante o lançamento de Venice (2014). Não por acaso, este talvez seja o trabalho em que o artista mais se concentra na formação dos versos, fazendo da rima descritiva o principal componente criativo para o fortalecimento da obra. Canções que revelam cenários, personagens e acontecimentos tragicômicos, como cenas que se conectam dentro de uma narrativa não-linear, resultado das vivências do próprio artista.

Esse é o álbum que eu sonhei em fazer no ensino médio, quando eu estava ouvindo The Blueprint, do Jay-Z, The Documentary, do The Game, e The College Dropout, de Kanye West“, disse em entrevista à Rolling Stone. De fato, ouvir Oxnard é como se transportar para o final da década de 1990 e início dos anos 2000. Um permanente reciclar de ideias, estruturas melódicas, batidas e elementos típicos do rap/R&B concebido nesse período. Frações instrumentais e poéticas que se refletem tão logo o disco tem início, em The Chase, parceria com Kadhja Bonet, e segue até a derradeira Cheers, encontro musical com o veterano Q-Tip.

Parte dessa estrutura vem da clara interferência de Dr. Dre como produtor executivo da obra. Ao mesmo tempo em que preserva a essência dos antigos trabalhos de Paak, vide a forte conexão com Venice e Malibu, toda a estrutura poética do disco parece apontar para o universo criativo detalhado em Compton (2015), último registro autoral do veterano. Da rima lisérgica que invade 6 Summers, passando pelos versos cômicos de Headlow, colaboração com Norelle em que brinca com a temática do sexo oral, Paak replica de forma particular o mesmo descompromisso que orienta a curta discografia de seu principal colaborador.

Mesmo a escolha dos artistas convidados a colaborar em Oxnard se relaciona diretamente com o universo musical de Dr. Dre, parceiro do rapper em Mansa Musa. São nomes como Kendrick Lamar, na já conhecida Tints, e até Snoop Dogg, na letárgica Anywhere, música que aponta para o mesmo universo melódico de Malibu. Surgem ainda nomes como J. Cole, em Trippy, Pusha T, em Brother’s Keeper, além, claro, de uma sequência de faixas assumidas individualmente pelo rapper, caso das ótimas Who R U? e Smile / Petty.

Talvez previsível para quem esperava por um possível avanço criativo em relação ao material entregue no disco anterior, Oxnard cresce em uma clara zona de conforto, proposta que deve agradar justamente ao público que teve acesso ao trabalho de Paak durante o lançamento de Malibu. Não se trata de uma obra decepcionante ou rasa, pelo contrário, bons momentos são encontrados durante toda a execução do registro. Entretanto, depois de um álbum executado com tamanha maestria e apreço aos detalhes, difícil não ansiar por novidade e torcer por uma obra maior.