"Para Sempre Conectados Mas Eternamente Distantes"

Ano: 2018
Selo: Fiasco Records
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Lupe de Lupe e Ventre
Ouça: Presciência, João Pessoa e Um Ano a Mais
Nota: 8.5

Resenha: “Para Sempre Conectados Mas Eternamente Distantes”, Emerald Hill

Para sempre conectados, mas eternamente distantes. O título escolhido pelos músicos Vítor Figueiredo de Almeida (guitarra, voz, sintetizadores) e Gabriel Novais (baixo, voz) para o primeiro álbum de estúdio da dupla como Emerald Hill não poderia ser mais claro. Obra de poemas lancinantes, o trabalho guiado pela completa honestidade dos versos encontra em desilusões amorosas, conflitos pessoais e memórias de um passado ainda recentes os principais componentes líricos para o fortalecimento de cada nova composição, resultando em um permanente exercício de fina exposição sentimental.

Concebido em uma estrutura crescente, livre de possíveis respiros, cada composição do disco serve de alicerce para a música seguinte, proposta que bruscamente arrasta o ouvinte para dentro de um imenso turbilhão emocional. “Me arrependo mais a cada vez / Que ouço ‘acabou’ / Mudanças pelas quais passamos / Os votos que não renovamos / Me destroem“, entrega a letra da inaugural Recomeço, um indicativo da poesia amarga que rege o disco. Versos tristes que acabam servindo de estímulo para o caótico cruzamento entre guitarras carregadas de efeitos, ruídos e a bateria firme que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira faixa-título.

Conceitualmente íntimo do mesmo som caótico que vem sendo explorado por grupos como Ventre, Gorduratrans e a mineira Lupe de Lupe, banda referenciada na faixa João Pessoa — “Hoje eu entendo quando o Vitor gritava / ‘Valadares’ e sobre deixar todos esses lugares / Que te fizeram mal” —, PSCMED muda de direção a todo momento, rompendo com qualquer traço de previsibilidade. Instantes de fúria, explosão e parcial recolhimento criativo, como pequenas variações de humor na mente de um personagem consumido pela dor.

São melodias acústicas que esbarram em paredões de ruídos, colagens eletrônicas, vozes berradas e composições atmosféricas que acabam confessando algumas das principais referências da dupla original de João Pessoa, na Paraíba. Difícil não lembrar de Jair Naves e Ludovic em faixas como a avassaladora Um Ano A Mais (“Eu me arrependo do que não lembro / Mas nas memórias um monumento / Pra você“) e Tudo Que Eu Devia Ter Dito Antes de Você Ir Embora (“E quando vêm perguntar de onde vem tanta tristeza / Eu digo que não há nada demais / Eu minto“). Composições que se projetam de forma turbulenta, sufocando o ouvinte emocionalmente.

Entretanto, a mesma dor que corrompe o disco, sutilmente liberta. “Existe um estranho conforto na tristeza / E uma estranha beleza na auto-piedade“, canta Novais na já citada João Pessoa, música que parte de um cenário físico, a própria capital paraibana, para dialogar com as principais inquietações que bagunçam a mente do eu lírico. É como ser convidado a revisitar (e refletir) sobre antigos relacionamentos, medos e desilusões amorosas, direcionamento que ecoa com naturalidade a cada novo verso espalhado pelo interior da obra.

Dentro dessa estrutura melancólica e reconfortante na mesma proporção, Para sempre conectados, mas eternamente distantes força uma audição contínua, como se fosse impossível escapar da solução de versos entristecidos que orientam a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Um evidente exercício de profunda entrega sentimental que não apenas distancia o som produzido pela dupla de outros nomes do famigerado “rock triste”, como parece dialogar com o que há de mais doloroso e transformador em diferentes fases da vida de qualquer indivíduo.

 


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