"Party"

Aldous Harding

Ano: 2017
Selo: 4AD
Gênero: Indie, Folk Gótico
Para quem gosta de: Cat Power e Marissa Nadler
Ouça: Imagining My Man e Party
Nota: 8.0

Resenha: “Party”, Aldous Harding

Em 2009, quando John Parish e PJ Harvey entraram em estúdio para a gravação do colaborativo A Woman a Man Walked By, havia no trabalho organizado pela dupla um forte senso de ruptura e possível distanciamento da fórmula experimental testada no antecessor Dance Hall At Louse Point, lançado em 1996. Um trabalho fora de sintonia, claramente confuso, como se cada artista estivesse em busca de um som/conceito diferente, resultando em uma sequência de faixas que pouco se assemelham ao mesmo brilhantismo alcançado pelo casal décadas antes.

Interessante perceber na presente relação de Parish com a neo-zelandesa Hannah “Aldous” Harding um poderoso exercício de transformação, como um forte diálogo com a mesma composição inventiva de Dance Hall At Louse Point. Segundo e mais recente álbum de estúdio da cantora e compositora que estreou em 2015, Party (2017, 4AD) encontra nas maquinações da música gótica, folk e ambientações típicas do Dream Pop o princípio para uma obra marcada pelos desejos e confissões sentimentais que escapam dos versos lançados pela artista.

Soturno, como uma propositada corrupção do som matutino que caracteriza grande parte das canções apresentadas no trabalho anterior, o registro de nove faixas cresce em meio a movimentos contidos de violão, criando pequenas brechas para a inserção precisa dos vocais e experimentos atmosféricos que invadem com naturalidade o interior da obra. Uma interpretação curiosa do mesmo universo musical desbravado há mais de três décadas pelo This Mortal Coil e outros trabalhos da cena alternativa inglesa.

Um bom exemplo dessa atmosfera claustrofóbica, densa, surge logo na segunda composição do disco, Imagining My Man. São quase seis minutos em que a voz pesada de Harding cresce lentamente, amarga, lembrando em alguns aspectos o trabalho de Cat Power em obras como Moon Pix (1998), ou mesmo veteranas aos moldes de Joni Mitchell e Vashti Bunyan. Surgem ainda referências claras ao trabalho de Elliott Smith, sonoridade reforçada no minimalismo dos arranjos e vozes cuidadosamente exploradas em Living The Classics.

Durante a execução do trabalho, interessante perceber como grande parte dessas referências se dobram de forma a valorizar a identidade e fina poesia de Harding. São composições que refletem sobre as principais angústias da artista (I’m So Sorry), detalham confissões românticas (The World Is Looking for You) e ainda sufocam em meio a versos essencialmente amargurados (Imagining My Man). Um trabalho marcado pela dor, completo pela inserção de metais, pianos sorumbáticos e toda uma atmosfera torta que parece típica dos registros produzidos por Parish.

Íntima do mesmo universo instrumental e poético de artistas como Marissa Nadler, Julie Byrne e, em menor escala, Liz Harris no Grouper, Harding estabelece uma obra capaz de dialogar com o ouvinte logo nos primeiros minutos, efeito direto da honestidade refletida em cada nova composição. Retalhos sentimentais e instantes de pura melancolia, como um convite a reviver grande parte das experiências, medos e tormentos tão íntimos da cantora neo-zelandesa quanto do próprio público.

 

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