"Pé No Chão"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap
Para quem gosta de: Emicida, Black Alien e Rashid
Ouça: Nuvens e Redenção
Nota: 8.5

Resenha: “Pé No Chão”, Rodrigo Ogi

Eu não sei como é que eu viveria sem escrever. Aliás, só vale viver escrevendo. Se eu não estiver escrevendo, a minha vida vai muito mal“. Do sample extraído de uma entrevista dada pelo escritor e jornalista João Antônio (1937-1996) ao programa Encontro Marcado, Rodrigo Ogi parece ter encontrado a base para as canções que abastecem o recém-lançado Pé No Chão (2017, Independente). Um repertório curto, apenas sete faixas, mas que sintetiza de forma expressiva (e necessária) grande parte dos conflitos – sejam eles pessoais ou externos – que diariamente bagunçam a cabeça do rapper paulistano.

De essência particular, por vezes intimista, o sucessor de RÁ! (2015), lançado há dois anos, parece encolher conceitualmente quando voltamos os ouvidos para os temas sutilmente detalhados pelo artista. Trata-se de um produto direto da alma e pensamentos Ogi, postura evidente na melancólica atmosfera de Anjo Caído – “Eu tô fraco e peço um forte sentado no bar / Me desafogar e mágoas afogar / Mas o bar é como um mar pra quem não sabe nadar / Acha que dá pé e quando vê não dá” –, faixa de abertura do álbum, mas que alcança melhor resultado no misto de dor e libertação que orienta os versos de Nuvens, segunda faixa do disco.

Autobiográfica, a canção mergulha em memórias da infância de Ogi (“E logo cedo eu fui testado no meu bairro / Onde molequin que não tem pai vai sofrer“), fala sobre a morte precoce do próprio pai e a natural busca por conforto nos braços da mãe (“Mas minha mãe foi meu exemplo, foi meu templo / Onde eu meditava para não perder o centro“). Um exercício completo pela voz da cantora Marcela Maita, como uma celebração ao aniversário de um ano do primeiro filho do rapper e uma preciosa reflexão sobre a paternidade (“E no balanço eu te guio e te faço flutuar / Pois meu colo é uma nave, de nuvens“).

O mesmo cuidado acaba se refletindo nos versos de Redenção, terceira música do disco. Costurada por referências extraídas da cultura pop — “Ouve Satriani com Tina Turner no iTunes / Vê Blade Runner e Goonies enquanto fala com a solidão” —, a canção de versos angustiados fala sobre o isolamento e frieza dos indivíduos, sempre curvados em direção à tela do celular. Uma poesia amarga, completa por trechos da série Deuses Americanos, baseada na obra de Neil Gaiman — “Eles foram condenados ao lixo / Nós reprogramamos a realidade / A linguagem é um vírus / A religião é um sistema operacional / E as orações são só uma porrada de spam“.

Na dobradinha formada por Deixe-Me e Orrevua, um respiro breve. Da produção assinada por NAVE Beatz e Laudz, ao uso de versos marcados pela parcial leveza — “Deixe eu ir, navegar por aí / Deixa o vento soprar e outra página surgir” —, poucas vezes antes Ogi pareceu tão acessível, pop, quanto na sequência que amarra as duas canções. Uma curva leve que antecede a explosão de rimas e batidas densas que tomam conta da urbana InSOMnia 2, novo encontro musical com Marcela Maita e uma passagem para a chegada dos rappers Emicida, Coruja BC1 e Diomedes Chinaski.

Composição que mais se distancia do restante da obra, a curtinha Passagem acabou sendo a escolhida por Ogi para o encerramento do trabalho. Pouco mais de dois minutos em que as batidas e bases de NAVE Beatz esbarram em um território sutilmente dançante, convidativo, fazendo da mutabilidade retratada nos versos — “Feito águias no ar / Rio que corre pro mar / Nunca o mesmo lugar / Tudo aqui passará” —, o ponto forte da canção. Um fechamento preciso, íntimo de tudo aquilo que cresce no interior do álbum e, ao mesmo tempo, uma ponte criativa para os futuros projetos do rapper paulistano.

 

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