"Percepção"

Poty

Ano: 2018
Selo: Escápula Records
Gênero: Indie, Rock, Folk
Para quem gosta de: Ian Ramil e Tim Bernardes
Ouça: Anos-Luz e Percepção
Nota: 8.0

Resenha: “Percepção”, Poty

Mesmo capaz de seduzir o ouvinte logo nos primeiros segundos, efeito da letra pulsante e naturalmente direta de Sol Menor – “Sábado é dia de ir lá fora / Todo dia é dia de explodir agora / A humanidade se derramando / Sobre as ruínas de mais um engano” –, Percepção (2018, Escápula Records), álbum de estreia do cantor e compositor gaúcho Poty, está longe de parecer uma obra imediata. Pelo contrário, é necessário tempo até absorver todas as nuances e pequenas variações poéticas/instrumentais que se espalham por entre as brechas do labiríntico registro.

De fato, o tempo é componente fundamental para se deixar guiar pelo som produzido pelo músico original de Jaguarão, município localizado no extremo sul do país, na fronteira com o Uruguai. Como indicado no título do trabalho, trata-se de uma obra guiada pelas experiências de seu realizador, o que configura em uma natural entrega e audição minuciosa por parte do ouvinte. Um som deliciosamente torto, por vezes confuso, porém, sempre curioso, como se feito para ser desvendado, ocultando informações até o verso final de Últimos Tempos, canção de encerramento do disco.

Quanto mais vivi menos sabia / Tudo que aprendi pode não ser / Anos-luz daqui mora uma vida / Que existe sem punir e sem sofrer“, canta em Anos-Luz, segunda composição do disco e um resumo involuntário da poesia triste, sempre existencialista, que recheia o trabalho. Instantes de parcial recolhimento que arrastam o ouvinte para dentro de um território marcado pelos conflitos internos do eu lírico. Versos embriagados, ainda que sóbrios em suas impressões, como se Poty fosse da realidade ao mais completo delírio, jogando com a incerteza.

Exemplo disso está na própria faixa-título do disco. Flutuando em meio a versos divididos entre a clareza e o obscuro – “De outro lado se esconde a fonte do teu conhecer / Noutro plano se pega a arte de perceber / Crentes em Portugal não vão resolver / Somos tudo em momentos próximos, pode escrever” –, Poty muda de direção a todo instante, lembrando uma versão menos mística de Raul Seixas no clássico Novo Aeon (1975). Poemas guiados pelas metáforas e símbolos parcialmente ocultos, conceito que se reflete mesmo nos instantes de maior efemeridade do álbum, como na curtinha A Vida É Como Uma Sopa.

O mesmo direcionamento instável se reflete na forma como o músico assume a base instrumental do disco. Do momento em que tem início, nas guitarras loucas de Sol Menor, passando pela completa estranheza da faixa-título, o folk psicodélico de Tão Sincero ou mesmo o rock sujo de Números Primos, cada elemento do disco se projeta como uma tentativa do artista em reinterpretar, dentro de uma linguagem autoral, o folk-rock dos anos 1960/1970. Instantes do mais profundo recolhimento seguindos de pequenas explosões rítmicas, como uma versão ampliada do material entregue no primeiro EP do músico, Casa (2016).

Concebido em uma estrutura própria, inexata, Percepções reflete não a identidade artística do cantor e compositor gaúcho, como a profunda interferência de Guilherme Ceron e Ian Ramil, produtores responsáveis pelo trabalho. Como tudo aquilo que Poty vem produzindo desde Casa, trata-se de uma obra marcada pelas ideias. Fragmentos que se entrelaçam sem ordem aparente, sempre mutáveis, como um convite a se perder pela mente e experiências de seu realizador, fazendo do álbum um experimento tão desafiador e complexo quanto gratificante.

 


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