"Plunge"

Ano: 2017
Selo: Rabid / Mute
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: The Knife e Planningtorock
Ouça: To The Moon and Back e IDK About You
Nota: 8.6

Resenha: “Plunge”, Fever Ray

Sintetizadores estrategicamente posicionados, batidas contidas, por vezes dançantes, sempre acompanhadas de vozes carregadas de efeitos e distorções etéreas. Sem pressa, mergulhando na construção de temas como maternidade, depressão, empoderamento feminino e morte, Karin Dreijer Andersson introduziu o público ao universo do Fever Ray, projeto paralelo da cantora e produtora sueca, junto do irmão Olof, grande responsável pelo som torto que orienta a curta discografia do temporariamente extinto The Knife. Uma pequena seleção de clássicos que vai da climática If I Had A Heart ao refinamento acessível de Seven.

Curioso perceber nas canções de Plunge (2017, Rabid / Mute), segundo álbum de inéditas produzido pela artista sueca, uma lenta desconstrução da parcial leveza que parecia orientar o trabalho lançado há oito anos. Pulsante, cru e intenso do momento em que tem início em Wanna Sip até a última nota, cada fragmento poético, batida e voz parece arremessar o ouvinte para um novo território, como um mergulho na mente insana de Andersson. Décadas de referências reconstruídas de forma propositadamente instável, como mergulhar em um oceano de incertezas.

Em um labirinto de ideias, Fever Ray carrega nos próprios sentimentos uma espécie de linha-guia, conduzindo o ouvinte pelas paredes sintéticas da obra. “Eu quero te amar, mas você não está facilitando“, canta logo no primeiro verso do disco. Em A Part of Us, faixa que mais se aproxima do material apresentado no álbum anterior, sussurros intimistas e exposições sensíveis. “Seus olhos em mim / Nós sabemos, nós sabemos / Fique até amanhã, então você pode ir“, canta em uma clara reflexão sobre o melancólico distanciamento de um casal, dor reforçada pela fina tapeçaria eletrônica que cobre toda a superfície da canção.

O mais interessante talvez seja perceber como Andersson utiliza dos próprios sentimentos para construir um pop sujo e esquizofrênico. Exemplo disso está na colisão de batidas e vozes instáveis de IDK About You, música que brinca com a repetição dos elementos (e as incertezas do eu lírico) de forma propositada — “Não, eu não sei sobre você / Eu não sei sobre você“. Nada que se compare ao turbilhão emocional que costura a letra explícita de To the Moon and Back, música que mais se aproxima da boa fase do The Knife em Silent Shout (2006) — “Primeiro eu levo você então, você me leva / Respire um pouco vida na fantasia / Seus lábios, quentes e confusos / Eu quero enfiar os dedos na sua buceta“.

Erótico, doloroso, intimista e explosivo, Plunge vai da serenidade (Falling, Mustin’t Hurry) ao caos (An Itch, IDK About You) em poucos segundos, como um indicativo não apenas da profunda transformação de Andersson, mas do seleto time de colaboradores convidados a trabalhar na produção/composição do álbum. São nomes como Paula Temple, Deena Abdelwahed, Nídia Minaj, Tami T, Peder Mannerfelt e Johannes Berglund que auxiliam na permanente desconstrução do registro, como se Fever Ray incorporasse diferentes personagens no decorrer da obra, insanidade reforçada no estranho clipe de Martin Falck para To the Moon and Back.

Passo seguro em relação ao material apresentado há oito anos, Plunge preserva, ao mesmo tempo em que corrompe, tudo aquilo que a produtora assinou não apenas sob o título de Fever Ray, mas como integrante do The Knife, vide as pequenas pontes instrumentais que se conectam ao último álbum da dupla, o excelente Shaking the Habitual (2013). Uma explosão de sentimentos, confissões expostas, delírios e possibilidades a serem detalhadas em estúdio, como se todas as experiências vividas por Andersson nos últimos anos fossem organizadas dentro de uma mesma obra.

 

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