"Power"

Ano: 2018
Selo: Tri Angle Records
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Oneohtrix Point Never e Arca
Ouça: Hunted e Heart
Nota: 7.5

Resenha: “Power”, Lotic

A incerteza sempre fez parte do som produzido por J’Kerian Morgan como Lotic. Criado em Huston, no Texas, porém, hoje residente em Berlin, o produtor norte-americano parece cada vez mais distante de um estrutura linear ou minimamente previsível, conceito que vem sendo aprimorado desde os primeiros registros autorais do artista, como Agitations (2015) e, principalmente, o caótico Heterocetera (2015), mas que acaba de ganhar novo enquadramento no completo experimentalismo de Power (2018, Tri Angle Records).

Primeiro álbum de estúdio do produtor, o trabalho que conta com distribuição do selo Tri Angle Records — casa de personagens curiosos como Serpentwithfeet e Forest Swords —, faz de cada composição um objeto curioso. Sem necessariamente parecer uma obra confusa, faixa após faixa, Morgan parece testar os próprios limites, costurando diferentes alinhamentos instrumentais (e até poéticos) de forma a explorar uma nova identidade artística.

Partindo de uma colorida sobreposição de ideias, Lotic vai do pós-industrial ao trap, flertando com ambientações melódicas e até manipulações vocais que dialogam com o mesmo universo experimental de Oneohtrix Point Never. Formas abstratas, sempre provocativas, mas que em nenhum momento distorcem o direcionamento acessível sutilmente apontado pelo produtor. É o caso de Hunted, música que se despe do parcial hermetismo do disco para revelar uma solução de batidas e vozes quentes, quase lacívas.

Em Heart, nona composição do disco, Lotic parece jogar com os extremos, indo da base frenética que abre a canção, à lenta inserção de vozes assumidas pelo convidado, Moro. Dentro desse labirinto conceitual criado pelo produtor, curioso perceber a formação de músicas que mesmo rápidas, jogam com a interpretação do ouvinte de forma essencialmente complexa. É o caso da curtinha The Warp and The Weft, um ziguezaguear de ideias que ainda serve de passagem para a densa Resilience.

Mesmo longe de uma estrutura regular, difícil não perceber o surgimento de pequenos “padrões” no decorrer da obra. O mais explícito deles talvez seja o direcionamento crescente explorado em grande parte das faixas. Perceba como Lotic parte sempre de um instante de breve silenciamento para, logo em sequência, se perder em um turbilhão de ideias e batidas tortas. Nada que de fato prejudique o trabalho do produtor, porém, acaba tornando a audição do álbum desinteressante.

O que encanta em Power continua sendo a minúcia de seu realizador. Basta voltar os ouvidos para a inaugural Love and Light, música que se espalha em meio a sintetizadores detalhistas, cercando e confortando o ouvinte. Mesmo o R&B atmosférico de Nerve se materializa em meio a camadas de ruídos atmosféricos, dançando em torno da poesia seca lançada pelo artista. Recortes, costuras rítmicas e inserções precisas que mostram o cuidado e contínua evolução de Lotic.