"Pra Curar"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: R&B, Folk, Soul
Para quem gosta de: Mahmundi e Castello Branco
Ouça: Vidaloca, Terminal e Sem Querer
Nota: 8.3

Resenha: “Pra Curar”, Tuyo

Dor que machuca e ao mesmo tempo liberta. Em Pra Curar (2018, Independente), primeiro álbum de estúdio do trio paranaense Tuyo, cada fragmento do registro encontra na força dos sentimentos, romances fracassados e profunda honestidade dos versos a base para um trabalho que acolhe na mesma medida em que parece provocar. Memórias de um passado ainda recente, fresco, conceito que se reflete tão logo a obra tem início, em Terminal (“O buraco que você abriu / Ainda está aqui / Te esperando / Feito cachorro“) e segue até a derradeira Sem Querer (“Eu te deixei escapar / Entre os meus dedos, então / Você caiu nos meus pés / E eu pisei em você“).

Guiado pelo caos urbano e pequenas crises de identidade, o trabalho de dez faixas segue exatamente de onde o trio formado pelas irmãs Lio e Lay Soares e o parceiro Jean Machado estacionaram no último ano, durante o lançamento do também melancólico Pra Doer (2017). Versos guiados pela completa incerteza da vida adulta, tema que orienta grande parte das canções produzidas em conjunto com a dupla Gianlucca Azevedo (Jan) e Pedro Soares (Jack). “A vida anda tão louca, tô encurralada / Com dilemas insolúveis / Porque agora eu sou grande, eu to bem adulta / Tenho que pagar de normal / Um adjetivo bom pra vida é: Louca / Porque pra viver não pode bater bem“, cresce a voz cristalina em Vidaloca, uma síntese preciosa da poesia desconcertante que serve de alicerce para o disco, proposta que vem sendo aprimorada desde os primeiros registros autorais do grupo, vide a contemplativa Solamento.

A principal diferença em relação aos antigos trabalhos da banda, principalmente o material entregue em Pra Doer, está no claro amadurecimento e sobriedade explícita na construção dos versos. “Eu sou dragão / Duro, pele grossa … Isolado / Corpo feito pra me defender / Tô cansado / Cuspo fogo pra te esquecer“, canta Machado em Eu Sou Dragão, música de essência pessimista, porém, consciente, como uma clara tentativa do eu lírico em seguir em frente, crescer. Versos em que reflete com naturalidade o peso de ser adulto, amargura vívida logo nos primeiros minutos do disco, em Me Leva (“Se passasse uma estrela cadente / E pudesse me dar um presente / Eu pedia: me leva“).

Mesmo quando se entrega ao amor, como na agridoce Cuidado, interessante perceber a forma como os sentimentos são trabalhados de forma essencialmente contida. “Eu não preciso de você / Eu sou um tronco forte / Tenho a terra pra me erguer / Mas eu te prendo / Eu te salvo / Vou te alimentar / Vou te dar lugar / Pra morar em mim“, borbulha o coro de vozes minimalistas enquanto melodias tristes ganham forma aos poucos, sem pressa. A mesma leveza se faz evidente em :'(, composição que parece dialogar com o mesmo R&B acústico de Rihanna, vide Never Ending, ponto de partida para a também delicada Aquela Sacada, música que poderia facilmente ser encontrada em algum disco do The xx.

Orientado pela economia das batidas e fórmulas instrumentais sempre contidas, por vezes em excesso, Pra Curar exige tempo até se revelar por completo para o ouvinte. Do momento em que tem início, em Terminal, passando pela lenta inserção de ruídos eletrônicos, em Vidaloca, cada fragmento do disco se movimenta de forma a revelar um universo de pequenos detalhes. São colagens e ambientações etéreas, instantes de breve silenciamento e porções volumosas, sempre densas, como uma estranha reciclagem do material entregue no antecessor Pra Doer. Das emoções anunciadas na voz, a passagem para um universo de formas abstratas, produto de uma obra guiada pelas inseguranças de qualquer jovem adulto.

Estranho pensar que mesmo hermético, Pra Curar seja justamente o trabalho mais acessível já produzido pelos integrantes da Tuyo. Como escapar da poesia cíclica e fina melancolia que invade a letra de Sem Querer? Logo na abertura do disco, em Terminal, sussurros de um indivíduo ainda preso ao passado, sufocado pela dor. Na poesia triste de Me Leva, confissões típicas de uma geração pouco interessa em seguir em frente. De fato, poucos trabalhos recentes se revelam ao público com tamanha honestidade. Canções mascaradas por falsos sorrisos, revelando personagens que buscam seguir em frente, mesmo navegando em um mar de desespero.

 


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