"Precariado"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Samba, Alternativa, MPB
Para quem gosta de: Curumin e Lucas Santtana
Ouça: Janelas, Roupa e Correntes Comprimidas
Nota: 7.7

Resenha: “Precariado”, Wado

Ouvir Precariado (2018, Independente) é como se transportar para diferentes fases da carreira de Wado. Primeiro álbum recheado apenas com composições inéditas em dez anos e 10º trabalho de estúdio na carreira do músico alagoano/catarinense, o registro que busca inspiração na obra de Noam Chomsky — filósofo norte-americano que discute a precarização dos meios de produção e consumo nos países subdesenvolvidos —, amplia parte do universo originalmente explorado pelo cantor em Terceiro Mundo Festivo, de 2008.

O esgoto deixou a grama verdinha / Apesar de sua podridão / Do esforço que foi, a sopa cozinha / Do esforço que foi, pedra vira pão“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em A Grama do Esgoto, um samba rock em parceria com Kassin em que discute os efeitos da urbanização e consumismo exagerado, indicando parte da poesia política que serve de estímulo para a construção do disco. Versos que servem de reforço ao mesmo conceito indagador que vem sendo explorado pelo artista desde a estreia com Manifesto da Arte Periférica (2001).

Interessante notar que mesmo sóbrio, Precariado está longe de parecer uma obra raivosa. Da mesma forma que em Ivete (2016), trabalho em que decidiu se aventurar pelo axé, explorando a composição de um som radiante, Wado mantém firme a leveza e o bom humor. Uma fuga de possíveis excessos que segue até a faixa de encerramento do disco, Onda Permanente, um rock ensolarado que divide com o músico Teago Oliveria, da Maglore (“Depois de tantos anos / Depois de tantos trens / Depois de alguns enganos / O que me faz bem é / Uma onda permanente“).

Mesmo guiado pelo forte conteúdo político/social, Precariado em nenhum momento se distancia da poesia romântica há tempos aprimorada pelo cantor. Exemplo disso está na completa leveza de Janelas, colaboração com as bandas Tuyo e Peartree. “Vim ver você / Vim te contar / Vim te trazer / O meu olhar / Me leva / Sem pressa / Aonde os seus olhos ganham cor / Aonde a água grita seu vapor“, cresce a letra enquanto sintetizadores e guitarras coloridas se espalham sem pressa, criando pequenas brechas para a inserção de vozes femininas.

A mesma sensibilidade acaba se refletindo nas duas composições que divide com Reuel Albuquerque (Morfina). De um lado, a balada eletrônica de Roupa, música que dialoga com a boa fase e o minimalismo de obras recentes como Samba 808 (2011) e Vazio Tropical (2013). No outro, o misto de melancolia e libertação que invade os versos de Correntes Comprimidas, uma triste homenagem ao ator Domingos Montagner, que morreu afogado em um afluente do Rio São Francisco (“É no raso / Que a água se agita / O profundo / De correntes comprimidas / Ah! você vai ter de largar!“).

Obra de colaborações, Precariado ainda se abre para a chegada de Momo, na enigmática Tudo Salta, o coletivo Baleia, no samba litorâneo de Bailas dos Barcos, além de Figueroas, colaborador na curtinha Quem Dera. Inserções pontuais que refletem o caráter transformador, ainda que próximo dos antigos trabalhos do cantor. Um som cuidadoso, pop, esmero que se reflete na construção dos versos e segue até o encarte do álbum, projeto que conta com uma série de ilustrações assinadas por Moisés Crivelaro.

 


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