"Princesa "

Ano: 2016
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Rock Psicodélico
Para quem gosta de: Boogarins, Luziluzia
Ouça: Artemísia, Cetapensâno
Nota: 8.6

Resenha: “Princesa”, Carne Doce

Foto: Rodrigo Gianesirp_tumblr_ob0p40Glvl1r9ykrko1_1280.png

O caminho percorrido pelo Carne Doce em Princesa (2016, Independente) está longe de parecer o mesmo do trabalho que apresentou a banda em 2014. Ainda que a essência psicodélica do quinteto de Goiânia seja preservada em cada uma das canções do novo álbum, sobrevive na poesia feminista de Salma Jô, sussurros intimistas e instantes de puro experimento a base do presente trabalho. Uma colisão de fórmulas, ruídos e temas propositadamente instáveis, como se para além de um possível amadurecimento e da famigerada “prova do segundo disco”, o grupo continuasse a se reinventar.

Sem pressa, o novo álbum se espalha preguiçoso, detalhando cada fragmento de voz, batida ou acorde que escapa das guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana. Das 11 composições que preenchem o registro, quatro ultrapassam os seis minutos de duração, como se parte das ambientações testadas pela banda nas apresentações ao vivo fossem incorporadas em estúdio. Da abertura do disco, em Cetapensâno, passando por músicas como Carne Lab e Açaí, o grupo – completo com os músicos Ricardo Machado e Aderson Maia –, parece seguir em uma medida própria de tempo.

Esqueça o ritmo crescente de Serão Urbano e toda a aceleração que movimenta faixas como Passivo e a colorida Fruta Elétrica. Em Princesa, mesmo as canções mais “urgentes” do trabalho se perdem em meio a distorções, vozes maquiadas pelo forte uso de efeitos e instantes de completa incerteza. Uma clara mudança de direção que perturba pelo uso de músicas exageradamente extensas – vide Carne Lab, um imenso bloco com 10 minutos de duração bem no centro do álbum –, mas que acaba convencendo pela capacidade do grupo em não se repetir.

Ponto central do disco, a poesia de Salma Jô se transforma e cresce durante toda a construção da obra. Bom exemplo disso está nos versos de Artemísia, música que discute de forma provocativa a temática do aborto, interpretando de maneira divina a responsabilidade assumida pelas mulheres. “Artemísia é a ideia de ‘meu corpo minhas regras’ levada ao máximo, ao ponto de ser assumidamente fantasioso, como se a dona do corpo fosse Deus. Quando nesta situação de decidir por um aborto, mesmo mulheres de muita fé escolhem romper com Deus por um momento, escolhem ser elas as maiores autoridades sobre as próprias vidas”, explicou em entrevista.

Por vezes movido pelas confissões e memórias da cantora, Princesa cresce na melancolia de Amiga, uma verdadeira ode à solidão — “Mas a noite vem / Faz eu me calar / Todos estão lá / E eu estou sem ninguém”—; mergulha em recordações da infância, caso da nostálgica O Pai — “Até hoje eu espero a sua benção” — e ainda encanta pela intimidade de Eu te Odeio — “E tenho tanto medo de esquecer o seu cheiro”. Uma fuga breve do núcleo da obra, abastecido em essência pela temática do empoderamento feminino e forte repressão à cultura machista, conceito explorado da abertura do disco — “Só é macho pras donzela”— aos versos de Falo — “Que tal se agora entrasse um homem aqui?”.

Gravado no Red Bull Studios, em São Paulo, e contando com a participação do músico Guilherme Kastrup (Elza Soares, INKY), Princesa lentamente distancia o Carne Doce de uma possível zona de conforto. Longe de parecer uma obra homogênea, cada composição do disco parece pensada de forma independente, irregular. O experimentalismo em Carne Lab, versos políticos em Artemísia, o romantismo leve que detalha Eu Te Odeio. Novas direções e possibilidades quase infinitas, prova de que o quinteto goiano está apenas começando.

 

 


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