"Process "

Ano: 2017
Selo: Young Turks
Gênero: R&B, Soul
Para quem gosta de: James Blake e The XX
Ouça: Blood On Me e Timmy's Prayer
Nota: 8.5

Resenha: “Process”, Sampha

Do verso sampleado em Too Much, colaboração com Drake no álbum Nothing Was the Same (2013), passando pela temática racial de Don’t Touch My Hair, parceria com a cantora Solange em A Seat at the Table (2016), poucos artistas se mostraram tão ativos nos últimos anos quanto o britânico Sampha. Em um intervalo de meia década, uma seleção de faixas ao lado de Kanye West, Frank Ocean, Jessie Ware, SBTRKT e Lil Silva, isso sem mencionar dois ótimos EPs — Sundanza (2010) e Dual (2013) —, e toda uma variedade de composições produzidas de forma independente.

Com todo esse repertório e vasta experiência, difícil encarar o recém-lançado Process (2017, Young Turks) como um típico álbum de estreia. Da abertura do disco, em Plastic 100°C, passando por músicas já conhecidas, caso de Blood On Me e (No One Knows Me) Like the Piano, cada segundo do presente trabalho se projeta como uma verdadeira confirmação. Em um intervalo de 40 minutos, Sampha e um time reduzido de colaboradores parecem jogar com os versos e sentimentos, reescrevendo diferentes aspectos do Soul/R&B produzido em território britânico.

Assim como nos últimos dois EPs, Sampha faz de cada composição um fragmento pessoal, sempre intimista. Produzido em parceria com Rodaidh McDonald — produtor escocês que já trabalhou ao lado de artistas como The XX, How To Dress Well e Adele —, o trabalho de dez ser faixas espalha em meio a versos dolorosos, conceito escancarado em músicas como Under (“Eu continuo a nadar nesses olhos”) e Incomplete Kisses (“Não me abandone aqui”). Memórias, tormentos e sussurros românticos que arrastam o ouvinte para dentro de um território consumido em essência pela dor.

Quarta música do disco, (No One Knows Me) Like the Piano sintetiza com naturalidade o aspecto melancólico da obra. Trata-se de um retrato amargo do período em que a mãe do cantor enfrentou um câncer. O mesmo conceito intimista se reflete em What Shouldn’t I Be?, canção marcada por diferentes acontecimentos envolvendo membros da família do cantor — “Eu deveria visitar meu irmão”. Em Blood On Me, faixa mais intensa do disco, um tema ainda mais complexo, pessoal. Entre batidas e versos fortes, a literal descrição de um pesadelo — “Eu juro que eles cheiram o sangue em mim / Eu os ouço vindo para mim”.

Marcado pelo isolamento do eu lírico, Process se projeta de forma quase claustrofóbica, como um passeio pela mente atormentada do cantor britânico. Colaborador frequente de diferentes nomes do Hip-Hop/R&B, Sampha acaba investindo na construção de um material particular. São poucos os nomes que aparecem ao longo do disco, como o já citado parceiro de produção, Rodaidh McDonald, e o rapper Kanye West, co-autor de Timmy’s Prayer, música que ainda conta com um precioso sample da música The Coldest Days of My Life Part (1972), do grupo Chi-Lites.

Interessante perceber que mesmo centrado no universo particular do cantor, Process em nenhum momento soa como um trabalho inacessível, fechado. Seja no recolhimento de Take Me Inside e (No One Knows Me) Like the Piano ou nas batidas e arranjos crescentes de Reverse Faults e Blood On Me, Sampha estabelece uma série de armadilhas poéticas e instrumentais que capturam a atenção logo em uma primeira audição do trabalho. Um mundo de sentimentos, dramas e relações prontas para serem deliciosamente saboreadas pelo ouvinte.

 

 

Veja também:


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend