"Puber"

Ano: 2018
Selo: Risco
Gênero: MPB, Alternativa
Para quem gosta de: Kassin e Domenico Lancellotti
Ouça: Aimoré e Puberdade
Nota: 7.8

Resenha: “Puber”, Jonas Sá

Ouvir Puber (2018, Risco) é como se perder em um território de pequenas incertezas. Longe da euforia lasciva detalhada nas canções do antecessor Blam! Blam! (2015), obra inspirada no erotismo dos anos 1970 e 1980, cada elemento do terceiro álbum de estúdio de Jonas Sá se revela como uma representação poética e instrumental de seu realizador. São memórias, desilusões, confissões românticas e tormentos intimistas, proposta que faz do álbum um experimento tão contemplativo e doce, quanto turbulento e confuso.

Do momento em que tem início, na enigmática Aimoré, até alcançar o último fragmento poético de Kim, uma delicada reflexão sobre a paternidade, letras e melodias se projetam de forma incerta, como se desvendados em essência apenas pelo próprio artista. Talvez, por isso, seja tão difícil se apegar ao material entregue pelo músico nos mais de 40 minutos do trabalho. Não existem atalhos ou versos fáceis, o que força uma audição atenta, por vezes exaustiva, como se o ouvinte fosse obrigado a desvendar o registro.

Mesmo imerso em um mundo próprio, Sá e o parceiro de produção, o irmão Pedro, criam pequenas brechas que autorizam a passagem do ouvinte. É o caso de Puberdade, uma balada psicodélica mergulhada em versos nostálgicos e memórias de um grande amor. “Eu me lembro de nós dois nos vendendo pra cidade / Somos luzes da cidade abraçando a escuridão / Queimando beijos em um fumo nos lábios de uma tentação“, canta enquanto sintetizadores, batidas e guitarras se espalham sem pressa, cercando o ouvinte.

A mesma poesia delirante se revela na delicada montagem de Imensidão, sétima faixa do disco. São pouco menos de cinco minutos em que arranjos de cordas, ruídos eletrônicos e batidas espaçadas servem de alicerce para o canto mágico, sempre misterioso, lançado por Sá (“Baby / Vem cá / Não perca a cabeça / Tá lá / o corpo de uma estrela / Sinuoso e bom / Colorido / Com os dentes de satã”). Um lento desvendar de ideias, temas e melodias melancólicas, conceito que se reflete na também hipnótica Transamérica.

Concebido em meio a versos trilíngues — como em Share The Drama, Entre Nosotros e Olas de Calor —, e incontáveis variações rítmicas, Puber muda de direção a todo instante, curioso, como se Sá fizesse da própria imprevisibilidade um importante componente criativo para o fortalecimento da obra. O próprio título do trabalho — uma derivação da palavra “puberdade” —, vem do claro desejo do músico em “descobrir novas coisas“, como explicou em entrevista ao Estadão.

Dentro desse território marcado pela incerteza e o confesso desejo de renovação, Puber encolhe e cresce a todo instante. São ruídos eletrônicos, como em Mas Ninguém Sabe, o pop leve de Voz do Rochedo, e até faixas que esbarram no lirismo torto de Caetano Veloso, vide 2013. Um permanente desvendar da própria identidade musical, como se do universo inaugurado pelo artista durante o lançamento de Anormal (2007), Sá fosse além, brincando de maneira proposital com a lenta desconstrução das próprias ideias.

 


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