"Pure Comedy"

Ano: 2017
Selo: Bella Union / Sub Pop
Gênero: Folk, Chamber Pop
Para quem gosta de: Fleet Foxes, Sun Kil Moon
Ouça: Pure Comedy, Total Entertainment Forever
Nota: 8.5

Resenha: “Pure Comedy”, Father John Misty

Movido pela comicidade e ironia escancarada nos versos, Josh Tillman fez do segundo álbum de estúdio como Father John Misty, I Love You, Honeybear (2015), uma criativa desconstrução de diferentes clássicos da música romântica dos Estados Unidos. Composições como Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins), The Ideal Husband e a própria faixa-título do disco, fragmentos da explícita maturidade poética do artista, concentrado em dissecar os mais variados aspectos da vida conjugal.

Em Pure Comedy (2017, Bella Union / Sub Pop), terceiro e mais recente álbum de inéditas do músico norte-americano, o tom cômico de Tillman se converte de forma a revelar a acidez dos versos e temas atuais explorados pelo músico. Composições ancoradas em debates sobre tecnologia, o preço da fama, a preservação do meio ambiente, política, mídias sociais, o culto cego à celebridades e conflitos existencialistas, típicos de qualquer ser humano. Uma constante sensação de que o sarcasmo detalhado em Bored in the USA, uma das principais faixas do disco anterior, tomou conta do presente trabalho.

Embora gravado ao longo do último ano, grande parte das canções apresentadas em Pure Comedy foram compostas em 2015, estabelecendo uma espécie de continuação do material apresentado em I Love You, Honeybear. A própria sonoridade do disco parece dialogar de forma explícita com o registro entregue há dois anos. Um som minucioso, produto da lenta inserção de pianos, arranjos de cordas, órgãos e metais, fazendo do álbum uma obra de essencialmente grandiosa.

Tamanho cuidado na composição dos arranjos acaba favorecendo de forma significativa a projeção das letras. São músicas como a provocativa Total Entertainment Forever, composição que discute os excessos da cultura de entretenimento (“É como se todas as imagens se tornassem reais / E alguém está vivendo minha vida para mim no espelho”), ou mesmo a extensa Leaving LA, música que passeia por diferentes aspectos da cidade de Los Angeles (“Alguém deve dizer-lhes sobre o tempo que eles não têm /  Para louvar o futuro glorioso e o passado sem esperança”).

Todo esse cuidado na construção dos versos acaba fazendo de Pure Comedy uma obra demasiado extensa. São composições quase textuais, propositadamente longas, como se Tillman explorasse todos os aspectos de um tema específico. O resultado está na formação de músicas pouco dinâmicas, arrastadas, caso de So I’m Growing Old on Magic Mountain, com mais de nove minutos de duração, além da já citada Leaving LA, com pouco mais de 13 minutos. Um registro que exige o esforço e tempo do ouvinte até ser absorvido em essência.

Mesmo carente de uma possível edição, difícil escolher e apontar uma faixa ou momento do disco que deveria ser descartado. Todos os elementos parecem cuidadosamente encaixado, como se Tillman fosse capaz de estabelecer ordem em uma obra essencialmente caótica. Melodias complexas que se espalham de forma a garantir um precioso pano de fundo para a rica poesia do músico norte-americano. Canções trabalhadas sem pressa, detalhando um curioso (e sempre pessimista) olhar sobre o presente.

 

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