"Queda Livre"

Ano: 2016
Selo: Geração Perdida
Gênero: Indie, Sadcore
Para quem gosta de: Lupe de Lupe, El Toro Fuerte
Ouça: Quase, Sorriso Besta
Nota: 8.5

Resenha: “Queda Livre”, Jonathan Tadeu

Eu juro por Deus / Que eu me esforço / Mas não posso deixar você / Esperando a saudade nascer em mim”. A angústia toma conta de grande parte dos versos de Queda Livre (2016, Independente). Segundo e mais recente álbum de inéditas do cantor e compositor mineiro Jonathan Tadeu, o sucessor do entristecido Casa Vazia (2015) mostra a evolução do artista em relação ao trabalho apresentado há poucos meses. Versos que traduzem a amargura do próprio compositor, mas que acabam criando uma espécie de relação e intimidade com o ouvinte.

Talvez seja melhor / Aprender a lidar/  Com a própria solidão / Antes de viver a dos outros”, canta em Ninguém se Importa, um sadcore econômico, típico dos trabalhos de Elliott Smith, e que parece servir de base para toda a sequência de apenas 10 composições que recheiam o disco. Um som angustiado, intimista, proposta que acompanha o ouvinte até os últimos instantes do trabalho, vide a derradeira O mundo é um lugar bonito e eu não tenho mais medo de morrer – “Quanto mais me impediam de ser, mais eu ia sendo tudo aquilo que eu não podia ser”.

Eu não preciso de nenhuma desculpa pra voltar / Mas me deixa uma pista quando precisar de mim”, entrega na poderosa faixa-título do disco, um retrato melancólico de qualquer indivíduo apaixonado, em busca de uma resposta que nunca chega. Letras que parecem atravessar uma corda bamba sentimental, sempre prontas para cair em um mundo sombrio, consumido pelas desilusões de Tadeu. Mais do que uma continuação do trabalho apresentado há poucos meses, um exercício de completa exposição do músico, honesto em cada fragmento de voz que flutua no interior do disco.

Longe de parecer uma obra sufocada pela saudade, abandono e todos os tormentos que invadem a cabeça do compositor, em Queda Livre, pequenas brechas ensolaradas garantem novo significado ao trabalho do músico mineiro. São declarações de amor, como na apaixonada Sorriso Besta – “Feito qualquer pisciano / Eu pensei que aquilo fosse um sinal Você me falou / E eu me apaixonei” –, ou mesmo pequenos fragmentos românticos, caso da efêmera Amour – “Mesmo que eu nunca acorde desse sonho ruim / Eu te amo até o fim / E eu nunca vou desistir”.

A própria instrumentação do disco assume um caminho distinto em relação ao trabalho apresentado em Casa Vazia. Das melodias “sorridentes” que marcam a inaugural Quase, passando pelo som acolhedor de Diana Ross, até alcançar as batidas minimalistas de Sorriso Besta, Tadeu utiliza do registro como um delicado experimento. Tímidas ambientações que rompem com o material essencialmente “caseiro” do disco anterior. Mesmo a voz de Tadeu se destaca e cresce, ocupando com destaque cada uma das canções espalhadas pelo álbum.

Pela primeira vez livre de possíveis comparações com o trabalho da Lupe de Lupe – coletivo com quem Tadeu vinha excursionando nos últimos anos –, Queda Livre, contrário ao que parece indicado no próprio título, reforça com naturalidade a ascensão do músico mineiro. Uma rica tapeçaria de versos amargos, românticos e estranhamente acolhedores. Sussurros angustiados que se provam capazes de sufocar e ao mesmo tempo libertar o ouvinte em uma rápida audição.

 

 

Para Tobias.

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