"Rausch"

Gas

Ano: 2018
Selo: Kompakt
Gênero: Experimental, Ambient
Para quem gosta de: The Field e Tim Hecker
Ouça: Rausch 2 e Rausch 7
Nota: 8.0

Resenha: “Rausch”, Gas

Depois de um período de intensa produção que resultou em quatro obras importantes para a ambiente techno — Gas (1996), Zauberberg (1997), Königsforst (1999) e Pop (2000) —, Wolfgang Voigt decidiu voltar os esforços para a administração do selo Kompakt, silenciando temporariamente o cultuado Gas. Passados 17 anos, o artista germânico que influenciou nomes como The Field e Gui Boratto voltou com um novo álbum de inéditas, Narkopop (2017), trabalho que conta agora com uma continuação em Rausch (2018, Kompakt).

Naturalmente íntimo de tudo aquilo que Voigt vem produzindo desde o início dos anos 1990, o trabalho de 60 minutos cresce como uma obra única, feita para ser apreciada do primeiro ao último segundo. Mesmo dividido em sete atos específicos, cada elemento do disco serve de estímulo para a composição de uma obra homogênea. Não por acaso, a versão digital do álbum conta com uma edição do material em mixagem contínua, sem interrupções.

Da mesma forma que o material apresentado em Pop, Voigt arquiteta o disco em uma estrutura crescente, pré-definida, como uma estranha narrativa instrumental pontuada por movimentos sutis e inserções marcadas. Dentro desse conceito, os quase oito minutos de Rausch 1 são pensados de forma a cercar e confortar o ouvinte dentro desse cenário dominado pela inserção de formas abstratas e melodias abafadas. Um lento e sempre minucioso desvendar de ideias.

Com a chegada de Rausch 2, Voigt se permite experimentar. São beats submersos, propositadamente arrastados, como um esboço climático do som produzido durante o lançamento de Narkopop. É somente com a chegada de Rausch 3 que o trabalho se abre para a inserção de novos elementos, revelando sintetizadores pontuais, sobrecargas de ruídos e pequenos respiros que servem de estímulo para a formação das batidas, agora nítidas, quase dançantes.

Na segunda metade do disco, o mais profundo caos. Do momento em que tem início Rausch 4, até alcançar a derradeira Rausch 7, cada fragmento do disco serve de estímulo para a canção seguinte. Canções que se projetam dentro de um verdadeiro turbilhão atmosférico, incorporando ruídos metálicos, sintetizadores alongados e batidas que parecem sufocar o ouvinte, lembrando os experimentos de Tim Hecker pós-Ravedeath, 1972 (2011).

Parte dessa estrutura dialoga diretamente com o título e conceito incorporado ao trabalho — Rausch do alemão, “intoxicação”. É como se Voigt infectasse o ouvinte lentamente, sem pressa, convidado a se perder em um território de pequenas incertezas e variações rítmicas sombrias. Nesse intervalo, variações febris, ruídos e manipulações eletrônicas vão da euforia ao breve recolhimento, tornando a experiência do ouvinte livre de qualquer certeza.