"Raw Silk Uncut Wood"

Laurel Halo

Ano: 2018
Selo: Latency
Gênero: Experimental, Ambiente
Para quem gosta de: Kaitlyn Aurelia Smith e Holly Herndon
Ouça: Raw Silk Uncut Wood e Mercury
Nota: 7.6

Resenha: “Raw Silk Uncut Wood”, Laurel Halo

Laurel Halo talvez seja uma das personagens mais interessantes da recente fase da música de vanguarda. Em um intervalo de poucos anos, artista residente em Berlim, foi do pop torto de Quarantine (2012), obra que evoca a boa fase de Björk, para o uso de experimentações inusitadas com a música eletrônica, direcionamento que vai da música concreta e techno, em Chance of Rain (2013), à mais completa abstração, ponto de partida para o curioso Dust (2017).

Quarto e mais recente trabalho de estúdio de Halo, Raw Silk Uncut Wood (2018, Latency) amplia de forma ainda mais significativa esse curioso território criativo que vem sendo explorado pela artista nos últimos anos. São seis composições inéditas, indo de faixas curtas (Supine) a atos extensos (Nahbarkeit), em que a norte-americana se concentra em manipular diferentes fórmulas instrumentais, flutuando pelos mais variados campos da música abstrata.

Em um curioso jogo de pequenos contrastes, mesmo que de forma não intencional, Halo vai do minimalismo atmosférico à incorporação de batidas completamente instáveis. Exemplo disso está na perturbação gerada entre Mercury e Quietude. De um lado, uma canção guiada pela formação de melodias lentas, porém, detalhistas, no outro, frações de caos. São pianos e ruídos sobrepostos que se espalham sem forma aparente, proposta que ganha novos contorno à medida que a faixa avança.

É justamente essa completa ausência de certeza que torna a experiência do ouvinte em RSUW tão interessante. Livre de qualquer traço de previsibilidade, Halo transporta o ouvinte para dentro de um cenário marcado pela mutabilidade dos arranjos e direcionamentos instrumentais. Canções como The Sick Mind, em que a musicista vai do jazz ao jogo de manipulações ambientais que poderiam facilmente serem encontradas na trilha sonora de um clássico filme de terror.

A principal diferença em relação aos últimos trabalhos de Halo, principalmente Dust, está no direcionamento atmosférico, ainda que torto, dado ao disco. Do momento em que tem início, na delicada faixa-título, até alcançar a derradeira Nahbarkeit, perceba como a produtora se concentra em cercar o ouvinte, confortado em uma cama de melodias etéreas que, lentamente, autorizam a inserção de ruídos pontuais e batidas sempre imprecisas, como uma fuga dos temas dançantes de Chance of Rain.

O resultado desse polimento inexato dado ao disco está na produção de uma obra que, mais uma vez, corrompe a identidade criativa de Halo. Livre de qualquer certeza, cada composição parece apontar para uma direção específica, colidindo e ideias e fórmulas instrumentais que se mantém distantes de um tema específico. É como se a cada novo álbum de inéditas, a norte-americana incorporasse um novo direcionamento estético, tornando a experiência do ouvinte sempre curiosa.