"Reflection "

Brian Eno

Ano: 2017
Selo: Warp
Gênero: Experimental, Ambient Music
Para quem gosta de: William Basinski, Tim Hecker
Ouça: Reflection
Nota: 8.0

Resenha: “Reflection”, Brian Eno

 

Em maio de 2016, Jeremy Allen, do site FACT Magazine, escreveu uma curiosa análise sobre o lançamento de obras cada vez mais extensas. Um possível reflexo das novas regras propostas por diferentes serviços de streaming – caso de Spotify e Apple Music. Trabalhos como The Colour in Anything, de James Blake, e Views, do rapper Drake que se perdem em meio a um número excessivo de composições, muitas delas desnecessárias, produzidas apenas para aumentar a renda captada em torno do registro.

Na contramão desse “movimento”, o britânico Brian Eno apresenta o atmosférico Reflection (2017, Warp). Entregue ao público poucos meses após o lançamento do elogiado The Ship (2016), obra marcada pela experimentação e uso atípico da voz dentro dos trabalhos do produtor, o novo disco segue a trilha de obras recentes como Lux (2012), fazendo da lenta sobreposição das melodias e temas eletrônicos a base da extensa (e única) composição do disco.

Longe de parecer uma novidade dentro da discografia de Eno, o trabalho de exatos 54 minutos de duração parece seguir a trilha de outro experimento produzido pelo artista em meados da década de 1980, Thursday Afternoon. Trata-se de uma peça única, 60 minutos de duração, uma versão reduzida da trilha sonora produzida para um vídeo que registra a montagem de sete telas da artista Christine Alicino, amiga de longa data do músico inglês.

Reflection, como o próprio título indica, estabelece um precioso de diálogo musical com os antigos trabalhos de Eno. Uma delicada reciclagem de conceitos e temas minimalistas, como se fragmentos de velhos registros produzidos pelo veterano fossem cuidadosamente resgatados e espalhados de forma sutil durante toda a construção do álbum. Um novo e, ao mesmo tempo, nostálgico capítulo dentro da extensa seleção de obras ambientais produzidas por Eno.

Embora livre da habitual divisão de atos que o músico estabelece em grande parte dos trabalhos – vide obras como Ambient 1: Music for Airports (1978) –, Reflection detalha pequenos agrupamentos estéticos, como retalhos da própria identidade musical do artista. São pianos econômicos nos minutos iniciais do disco, como um resgate da essência minimalista dos anos 1970, fragmentos eletrônicos que atravessam a década de 1980 e até pequenos experimentos que parecem inspirados no ainda recente The Ship.

Desenvolvido de forma isolada, livre das habituais instalações artísticas e projetos multimídia de Eno, Reflection convida o ouvinte a se perder dentro dele. Em um intervalo de quase uma hora, o produtor britânico faz do registro uma espécie de fuga dos excessos e correrias diárias. Um refúgio criativo, sensível e até mesmo perturbador, como se no minimalismo da extensa composição, Eno criasse pequenas brechas a serem preenchidas pela interpretação e sentimentos do próprio ouvinte.

 

 

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