"Rimas & Melodias"

Rimas & Melodias

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Tássia Reis e Lívia Cruz
Ouça: Origens e Coroação
Nota: 8.0

Resenha: “Rimas & Melodias”, Rimas & Melodias

A força do coletivo ecoa em cada fragmento de voz ou batida assinada pelas integrantes do Rimas & Melodias. Formado por Alt Niss, Drik Barbosa, Karol de Souza, Stefanie, Tássia Reis, Tatiana Bispo e DJ Mayra Maldjian, o grupo apresentado de forma despretensiosa em meados de 2015, chega ao primeiro álbum de estúdio fazendo de cada colaboradora o principal estímulo para a formação de uma obra sensível, ainda que crua e visceral. Canções que atravessam o cotidiano das sete integrantes, jogando com temas como racismo, criminalidade, violência contra a mulher e empoderamento feminino de forma sempre provocativa.

Extensão segura do material apresentado há poucos meses na série de clipes produzidos por Samukera e Brombini Dois G, cada uma das sete composições do autointitulado registro amarra passado e presente de forma sempre curiosa. Um bom exemplo disso está na extensa Origens. Em um intervalo de quase oito minutos, a faixa não apenas passeia pelas memórias da infância de cada integrante, como ainda bebe de diferente ritmos e possibilidades dentro de estúdio, colidindo elementos do Neo-Soul com bases eletrônicas que dialogam com as pistas, lembrando um improvável encontro entre Mary J Blige com Azealia Banks.

Na curtinha Sete Chaves, quinta faixa do disco, um som enevoado, doce. Trata-se de um compilado de músicas produzidas individualmente por cada uma das colaboradoras do projeto. O mesmo conceito experimental se revela na homônima composição de abertura do trabalho. Pouco menos de três minutos em que vozes e batidas se conectam de forma propositadamente torta, abrindo passagem para a força poética de Coroação, música que amarra feminismo e preconceito de forma inventiva, dialogando de forma expressiva com o último álbum de Tássia Reis, Outra Esfera (2016).

Sensível, Paradoxo, quarta faixa do disco, detalha a força dos sentimentos no trabalho produzido pelo Rimas & Melodias. Enquanto os versos mergulham na conturbada relação de um casal – “Teus traumas me confundem e meus traumas te assustam / Na contramão de tudo, nossas almas se juntam” –, musicalmente a canção invade o mesmo território melódico de músicas como Mad, parte do último álbum de Solange, o ótimo A Seat at The Table (2016). A mesma riqueza de detalhes cresce na autobiográfica Vivência, faixa que acaba servindo como um novo estímulo à poesia intimista do trabalho.

Para a derradeira Manifesto/Pule, Garota, um poderoso discurso sobre empoderamento. Inaugurada por trechos do filme Os Sete Gatinhos (1980), de Neville d’Almeida, a canção lentamente ganha forma, abrindo passagem para que cada integrante assuma um posição de destaque no interior da faixa. Nos instantes finais da canção, o septeto ainda conta com a presença da Djamila Ribeiro, responsável pelo poema de temática feminista que serve de complemento ao conjunto de rimas lançadas por cada artista – “Às vezes a gente acha que o muro é muito alto / Mas pule, garota / Você não vai nem arranhar os joelhos“.

Maior a cada nova audição, o primeiro álbum do Rimas & Melodias é o típico caso de um registro que exige tempo até ser absorvido completamente. Além do time de vozes que garante movimento ao trabalho, a obra de sete faixas se abre para a profunda interferência de DIA e GROU, junto de Mayra Maldjian, responsáveis pela produção do trabalho. Pouco mais de 30 minutos em que o coletivo paulistano passeia pelo trabalho sem necessariamente buscar conforto em um gênero ou conceito específico, fazendo do álbum uma obra em constante processo de amadurecimento e reinvenção.

 


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