"Rio do Tempo"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Indie, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Quarto Negro e Vanguart
Ouça: Vermelha e Imensamente Sutil
Nota: 7.6

Resenha: “Rio do Tempo”, Apeles

Como integrante da banda paulistana Quarto Negro, Eduardo Praça passou os últimos oito anos em um processo de pleno amadurecimento musical e poético. O resultado desse exercício permanente está na formação de dois ótimos trabalhos de estúdio – Desconocidos (2011) e Amor Violento (2015) –, apresentações em alguns dos principais festivais no Brasil e no exterior – Primavera Sound e SXSW –, além de um vasto repertório de composições marcadas pelo lirismo melancólico dos versos, confissões intimistas e arranjos cuidadosamente explorados.

Satisfatório perceber em Rio do Tempo (2017, Independente), primeiro álbum do artista paulistano em carreira solo, o mesmo cuidado na construção de cada faixa. Trata-se de uma clara continuação do ambiente sombrio desbravado pelo cantor e compositor durante o lançamento do single Demônio Bom, trabalho entregue ao público em meados do último ano e um convite a visitar os principais tormentos, medos e ilusões do artista, base para a poesia do presente disco.

Querida, você sofre demais / O tempo é tão frágil, eu sou pequeno / Meu bem, eu sempre sofro demais“, canta em Imensamente Sutil, um retrato da poesia angustiada que alimenta grande parte do trabalho. Memórias extraídas da adolescência (“Me lembro quando tinha 16 / O carma tão mais leve aos 16 / O tempo é tão honesto aos 16“) e pensamentos recentes (“Antes tão vazio / Hoje sou pele e fogo“) que forçam o personagem central do disco a provar de diferentes vivências e emoções.

Agridoce, Rio do Tempo flutua entre o desejo, conceito reforçado em Vermelha (“Quando ela passa / Não há acento que disperse essa paixão / Trapaça Que a distância fortalece o amor“), e a mais profunda melancolia, ponto de partida para os versos em De Manhã, Doce e Leve (“Porque não vai passar minha dor / Ela não cuida de ti como eu cuidarei / E cuidava Como eu queria“). Um pequeno turbilhão sentimental que encanta e cresce mesmo nas limitações vocais do cantor.

No que tange à formação dos arranjos, Praça prova de novas sonoridades, porém, mantém firme a relação com a mesma ambientação soturna que abasteceu a Quarto Negro. Entrecortado por pianos entristecidos e pequenos atos instrumentais, caso de XXVI I ’13, XXV VI ’16 e E Eu Anseio pela Colisão dos Mundos, o trabalho sutilmente esbarra na obra de veteranos como Echo & the Bunnymen e Arcade Fire. Surgem ainda inserções eletrônicas e fagulhas de pura inovação que pintam com ineditismo o trabalho do músico.

Cuidadosamente gravado no estúdio Ilha do Corvo, em Belo Horizonte, o álbum que conta com produção do experiente Leonardo Marques (Transmissor) se abre para a chegada de um time seleto de colaboradores. São nomes como Danuza Paz, Gabriel Soares, Gustavo Teixeira (Nuven), Hélio Flanders (Vanguart), Rodrigo Garcia e Jennifer Souza (Transmissor). Inserções de vozes, batidas, arranjos e versos que lentamente ampliam o domínio de Eduardo Praça em Rio do Tempo.