"Romã"

Sofia Freire

Ano: 2017
Selo: Joinha Records / Natura Musical
Gênero: Art Pop, Eletrônica, Dream Pop
Para quem gosta de: Grimes, Lulina e Mãeana
Ouça: 1H00 (Ou a Boca Se Cala) e Meu Bordado
Nota: 8.4

Resenha: “Romã”, Sofia Freire

A feminilidade transborda em cada fragmento poético, sussurro ou pequena inserção melódica que marca o trabalho de Sofia Freire. Dois anos após o lançamento do primeiro álbum em carreira solo, o curioso Garimpo (2015), registro em musicou poemas do pai, Wilson, e da irmã, Clarice, a cantora e compositora pernambucana reaparece cercada por um time seleto de compositoras, fazendo de cada uma das nove canções que abastecem o eletroacústico Romã (2017, Joinha Records / Natura Musical), segundo registro de inéditas em carreira solo, um precioso desvendar da alma feminina.

Delicado, tal qual a fruta que dá nome ao título do trabalho — “A romã nasce a partir da autofecundação e em muitas culturas ao redor do mundo, ela representa o feminino“, explicou em entrevista —, o registro costurado pelo uso de ambientações etéreas e vozes tratadas como instrumentos flutua em meio a poemas assinados por Micheliny Verunschk, Clarice Freire, Mariana Teixeira, Piera Schnaider e Luna Vitrolira. Canções que vão do existencialismo e profunda transformação pessoal de Mutante (“Nada Mais Faz Sentido / Sou Mutante“), faixa de abertura do disco, ao lirismo idílico e metáforas de Auroras Flamboyants (“Um dia fui serva de um rei na dança do fogo / Cantei raios e trovões anunciando a manhã“).

Perfeita representação da poesia minuciosa que sustenta o disco sobrevive em Meu Bordado, quinta composição do álbum. Em um universo particular, intimista, Verunschk, autora da canção, detalha o peso da repressão feminina e a busca pela libertação de forma sensível, amarrando passado (“É o trabalho da mulher, ela dizia / Como se contasse um segredo / Como se transmitisse uma ideia“) e presente (“Eu sangro muito / Especialmente quando bordo as palavras paz / Liberdade / Ou o meu próprio nome“) enquanto pianos e batidas cíclicas servem de estímulo para a construção dos versos.

Alicerce para os sentimentos e temas conceitualmente explorados por Freire, sobrevive na poesia do disco uma natural ponte para a construção dos arranjos, batidas e bases assinadas por Freire e o produtor Homero Basílio. Exemplo disso está no jogo de palavras quase instrumental que toma conta de 1H00 (Ou a Boca Se Cala) ou mesmo na minimalista Canção da Bruxa, faixa que joga com a sobreposição das rimas e vozes de forma hipnótica. Sétima canção do disco, Matriaska é outra que carrega na poesia o principal componente criativo, mergulhando no mesmo pop etéreo de nomes como Grimes, Björk e outras representantes da cena estrangeira.

Dentro desse universo particular, ora amedrontador e doloroso, ora sensível e acolhedor, Freire entrega ao público uma obra que cresce em pequenas doses, sem pressa. Trata-se de uma obra econômica quando próxima do material apresentado em Garimpo, como uma lenta desconstrução dos conceitos eruditos que acompanham a cantora desde o começo da carreira. Instantes em que a musicista vai do minimalismo de Jardim Secreto ao som ruidoso, denso, de faixas como Confronto, música que mais se aproxima do material apresentado no disco anterior.

Espaço aberto ao experimento, Romã delicadamente amplia uma série de elementos originalmente testados pela cantora nas composições de Garimpo, sustentando na sequência de vídeos produzidos para cada uma das nove faixas do álbum um evidente ponto de transformação/maturação. Mais do que um registro autoral, produto das ideias e experiências particulares de Freire, um trabalho de essência colaborativa, mutável, como um espaço aberto para a chegada de diferentes parceiros, sonoridades, histórias e possibilidades a serem compartilhadas com o público.

 

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