"Roteiro Para Aïnouz, Vol. 3"

Ano: 2017
Selo: Don L Music
Gênero: Hip-Hip, Rap
Para quem gosta de: Rashid, BK e Emicida
Ouça: Fazia Sentido e Laje de Ilusões
Nota: 8.0

Resenha: “Roteiro Para Aïnouz, Vol. 3”, Don L

Você não me engana / É tudo superficial / Tudo bem / Eu não te amo“. A negativa que maraca o verso de abertura em Eu Não Te Amo, composição escolhida para inaugurar o recém-lançado Roteiro Para Aïnouz, Vol. 3 (2017, Don L Music), indica a trilha pessimista que marca o novo registro de inéditas do rapper cearense Don L. Um refúgio urbano, propositadamente caótico, estímulo para a construção de una poesia densa que orienta a direção seguida pelo ouvinte até a derradeira Laje das Ilusões.

Primeiro capítulo da trilogia Roteiro pra Aïnouz, obra que se inspira e ao mesmo tempo dialoga com o trabalho produzido pelo diretor cearense Karim Aïnouz – responsável por filmes como O Céu de Suely (2006), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2010) e Praia do Futuro (2014) –, o sucessor da mixtape Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L (2013) nasce como um reforço direto à maturidade do artista. Personagens, histórias e conflitos pessoais que garante ritmo e força ao registro.

Com produção assumida pelo próprio artista em parceria com Deryck Cabrera, Roteiro Para Aïnouz, Vol. 3 é uma obra que apresenta Don L como protagonista, porém, revela ao público um time de colaboradores e parceiros necessários para a formação do álbum. Uma coleção de ideias que ultrapassa a ambientação e base concisa do registro, esforço aliado ao trabalho dos co-produtores Leo Justi, DJ Caíque, Sants e Luiz Café, mas que cresce nas rimas e passagens pelo interior do disco.

Logo na abertura do disco, um encontro com Diomedes Chinaski na sóbria Eu Não Te Amo, uma lenta sobreposição de batidas e vozes que se quebra em diferentes atos, lembrando em alguns aspectos a estrutura explorada por Kanye West pós-YEEZUS (2013). Rimas afiadas que ganham melhor enquadramento na parceria com Fazia Sentido, encontro com Terra Preta e uma forte reflexão sobre as pequenas conquistas, derrotas e articulações artificiais que marcam a presente fase do rap nacional.

Com a chegada de Aquela Fé, um R&B em parceria com o cantor Nego Gallo, a passagem para o lado mais acessível do trabalho. Um cuidado que se refere na intensa colaboração entre Don L e o conterrâneo Fernando Catatau (Cidadão Instigado) em Cocaína. Música que ainda rende uma continuação em Cocainterlúdio, parceria com saxofonista Thiago França (Metá Metá, Passo Torto), teclados de Maurício Fleury (Bixiga 70), bateria de Thomas Harres (Abayomy) e baixos de Gustavo Portela e Rodrigo Coei.

Salve a rápida participação da rapper Lay em Mexe Pra Cam, repetindo a anterior parceria em Chapei, toda a porção final do registro se concentra nas rimas e temas explorados em essência por Don L. Uma solução de versos particulares, sempre explosivos, base para a construção de músicas como Ferramentas e Se Num For Demais, mas que assume melhor refinamento na montagem da derradeira Laje das Ilusões, composição que conta com a assinatura do produtor Leo Justi.

 


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