"Rua I"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Pós-Rock
Para quem gosta de: Paes, Kalouv e Mahmed
Ouça: Lume, O Rio Aos Olhos Dela e Docilidade
Nota: 8.2

Resenha: “Rua I”, Torre

Em Rua I (2018, Independente), o tempo é componente fundamental para entender o som produzido pelo grupo pernambucano Torre. Sem pressa, cada faixa que abastece o registro parece crescer em um ritmo próprio, surrando camadas de texturas instrumentais, ambientações cósmicas e paisagens sonoras pensadas para confortar o ouvinte. Frações melódicas e poéticas que refletem o completo esmero do quarteto formado por Felipe Castro (voz e guitarra), Antônio Novaes (guitarra e sintetizadores), Vito Sormany (bateria) e Danillo Sousa (baixo).

Exemplo disso está na sequência de abertura composta pela faixa-título e Docilidade. São vozes sintéticas que se entrelaçam de forma quase instrumental, flutuando em meio a nuvens de sons atmosféricos, colagens eletrônicas e pianos orientados pela poesia cíclica de Castro – “Sem volta / Sem volta / Sem volta“. Uma fagulha para a sequência de batidas e guitarras crescentes, sempre detalhistas, além, claro, de versos densos que correm por entre as brechas da canção – “Espadas penduradas / Que brilham ofuscadas / Elas não estão sós / Tem muitos quadros ao redor / E eu não estou“.

Colaboração com Jáder Cabral de Mello, Lume é outra criação que encanta pela riqueza de detalhes. Enquanto a letra se revela em pequenas doses – “Me deixa passar / Por toda essa dor / Pra ver se eu aprendo a viver / Te deixo brincar / Com a chama do amor / Pra ver se te queima” –, porções instrumentais convidam o ouvinte a se perder em um território marcado pela incerteza, lembrando as variações rítmicas do Radiohead em OK Computer (1997). Um som precioso, cuidado que se reflete nas paisagens instrumentais da canção seguinte, O Rio aos Olhos Dela, turbilhão sonoro que se espalha sem pressa, dialogando com o mesmo pós-rock de outros grupos nacionais, como Mahmed e Kalouv.

Interessante perceber a minúcia do quarteto mesmo nos instantes de maior simplicidade do registro. É o caso de Volta, quinta faixa do trabalho. Concebida em parceria com Lisa Casé, responsável pela inserção de pianos e vozes complementares que recheiam o álbum, a canção mais oculta informações do que parece revelar. São versos tímidos que se perdem em meio a pequenas variações instrumentais – “Sempre que lembrar / Eu vou me cobrar / Explicações / Não tem volta / Que a volta a gente dá só” –, cercando o ouvinte aos poucos. Um aquecimento para o material entregue logo em sequência na colorida Da Janela, uma Árvore, música guiada pelo lento desvendar das guitarras.

Escolhida como primeiro single do disco, Até Amanhã, talvez seja a canção que mais se distancia do restante do trabalho. Do uso de metais, emulando a trilha sonora de um filme noir, à linearidade dos versos, difícil não pensar na canção como uma propositada curva criativa dentro do álbum. Claro que a mudança de direção em nada interfere na produção de uma música essencialmente detalhista, beleza que se reflete até o último instante da faixa, assim como o restante da obra, montada a partir de incontáveis camadas destacadas pela produção de Guilherme Assis e masterização assinada pelo veterano Buguinha Dub.

Síntese da obra, a derradeira Quadro de Poucas Palavras não apenas resgata uma série de elementos originalmente testados nas primeiras canções do disco, como garante o fechamento ideal para o trabalho. Trata-se de uma composição que encolhe e cresce a todo instante, irregular, dosando entre instante de profunda calmaria e atos de pura turbulência criativa, como se a banda jogasse a todo instante com as emoções do ouvinte. Uma explosão controlada que preserva a essência do grupo pernambucano e, ao mesmo tempo, aponta a direção para os futuros trabalhos da banda.

 


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