"Salt"

Ano: 2018
Selo: Twin Group
Gênero: Indie, Dream Pop, Art Pop
Para quem gosta de: Blood Orange e Porches
Ouça: Alien FM, Jaipur e Set Me Free
Nota: 7.8

Resenha: “Salt”, Mr Twin Sister

A colagem de ritmos que embala a inaugural Keep On Mixing funciona como um indicativo do som produzido para o terceiro álbum de inéditas do grupo nova-iorquino Mr Twin Sister, Salt (2018, Twin Group). Entre batidas eletrônicas que atravessam o pop dos anos 1980 e 1990, sintetizadores frenéticos servem de complemento à poesia confessional lançada pela vocalista Gabe D’Amico. “Como ficou tão ruim? / Como essa estranheza se agitou? / Como posso dizer que sou livre? / Eu dei a você o direito de continuar me rastreando?“, questiona a letra da canção enquanto reflete sobre o fim conturbado de qualquer relacionamento.

Um som crescente, forte, contraponto ao material entregue na faixa seguinte do disco, a climática Alien FM. Fragmento que mais se aproxima do material entregue pelo grupo há quatro anos, no segundo álbum de estúdio do projeto, a canção de essência jazzística vai do dream pop ao R&B de Sade de forma curiosa, reforçando a presença de cada integrante da banda — hoje completa por Andrea Estella (voz), Dev Gupta (teclados), Eric Cardona (guitarra e voz) e Bryan Ujueta (bateria). Encaixes minuciosos que acabam servindo de passagem para a climática Koh-I-Noor, música guiada pela lenta sobreposição das batidas e vozes eletrônicas, lembrando os esporádicos encontros entre James Blake e Bon Iver.

Na sequência formada por Buy To Return e Tops and Bottoms, um parcial regresso à mesma atmosfera explorada pelo grupo nova-iorquino no registro que antecede Salt. Inserções minuciosas que vão do soft-rock ao soul em uma estrutura jazzística, lembrando o trabalho de Blood Orange no ainda recente Negro Swan (2018). Perceba como todos os elementos parecem assentar ao fundo das cada composição, confortando o ouvinte. Um som deliciosamente contido, estímulo para o pop eletrônico de Deseo, música guiada pela temática da separação e um claro ponto de mudança dentro da curta discografia da banda.

De base funkeada, com um pé na década de 1970, Taste In Movies abre passagem para um dos momentos de maior transformação da obra. Da linha de baixo destacada, passando pela inserção das guitarras e sintetizadores pontuais que ecoam de forma complementar aos versos, todos os elementos da canção  convergem de forma a arrastar o ouvinte para um território dançante, conceito reforçado pela inserção de metais e da percussão que cresce na segunda metade da faixa. Um imenso labirinto melódico que prepara o terreno para a preciosa Jaipur, oitava composição do disco.

Estou perdendo a cabeça, procurando por você / E, mesmo se eu te encontrasse, o que eu faria? / Eu fugiria de você / Eu não sou forte o suficiente / Generosa o suficiente / Eu não tenho vontade / Para acreditar o suficiente“, desaba o coro de vozes andróginas em um ato de profunda entrega e vulnerabilidade do eu lírico. O destaque acaba ficando por conta da rica base instrumental da canção. São batidas e sintetizadores ritmados que buscam referência em elementos da cultura indiana, como uma clara tentativa da banda em ampliar os limites do próprio trabalho.

Composição que mais se distancia do restante da obra, a derradeira Set Me Free preserva a essência jazzística que vem sendo testada desde o primeiro álbum de estúdio, In Heaven (2011), porém, sutilmente convida o ouvinte a mergulhar em um universo de novas possibilidades. São melodias abafadas, colagens e vozes que apontam para o início dos anos 1990, como uma clara tentativa da banda em replicar a atmosfera das principais obras de artistas como Portishead e Massive Attack. Uma propositada ruptura estética que parece apontar a direção para os futuros trabalhos da banda.

 


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