"Sambas do Absurdo"

Ano: 2017
Selo: YB
Gênero: MPB, Samba
Para quem gosta de: Metá Metá, Passo Torto
Ouça: Absurdo 6, Absurdo 2
Nota: 8.0

Resenha: “Sambas do Absurdo”, Rodrigo Campos, Juçara Marçal, Gui Amabis

Mesmo na curta duração de seus atos, difícil não se surpreender pela força das canções e grandiosidade de Sambas do Absurdo (2017, YB). Produto da colaboração entre o cantor e compositor Rodrigo Campos, a cantora Juçara Marçal e o produtor Gui Amabis, o trabalho inspirado no ensaio O Mito de Sísifo (1942), obra do escritor franco-argelino Albert Camus, faz da lenta desconstrução do samba e de pequenos absurdos do cotidiano o principal estímulo para a composição dos versos.

Dotado de uma poesia particular, resultado da parceria entre Campos e o colaborador de longa data, o artista plástico e escritor Nuno Ramos, também responsável pela imagem de capa do disco, Sambas do Absurdo se espalha sem pressa, detalhista e provocativo. Versos alimentados pelo uso de temas urbanos, reflexões existencialistas, sexo e conflitos diários. Caos orquestrado com leveza, ponto de partida para cada uma das oito faixas do disco, todas intituladas Absurdo e numeradas de trás para frente.

Em essência orientado pela voz de Marçal, o trabalho encolhe e cresce a todo instante, mergulhando na formação de temas confessionais, vide Absurdo 3 (“Ter você, ter você / Ter areia / Ter você, ter você / Ter a lua“), e questionamentos intimistas, marca de Absurdo 7 (“O nosso algoz / Dentro de nós / Não tem polícia / Na minha voz“). Poemas curtos, rápidos, porém, imensos quando observados de forma atenta, dentro da pluralidade de histórias, cenas e conceitos explorados pelo trio.

A mesma versatilidade na composição dos versos se reflete na costura dos arranjos que cobrem o disco. Na trilha do último registro de inéditas de Campos, o temático Conversas com Toshiro (2015), Sambas do Absurdo encontra no uso de melodias orquestrais um fino complemento ao samba arquitetado pelo grupo. Pinceladas acústicas que servem de complemento ao canto forte de Marçal, reflexo da polidez a atenção constante de Amabis, por vezes íntimo do autoral Ruivo em Sangue (2015).

Entre instantes de pura suavidade, marca de faixas como Absurdo 4 e Absurdo 1, Sambas do Absurdo encanta pelos momentos de maior experimentação. É o caso de Absurdo 6. Em um intervalo de apenas três minutos, guitarras enevoadas se espalham em meio a ruídos, batidas sampleadas e passagens breves pelo samba. O mesmo cuidado se repete ainda em Absurdo 5 e Absurdo 3, canções envoltas em uma atmosfera quase claustrofóbica, sufocante.

Conduzido com leveza, a parceria entre Campos, Marçal e Amabis segue de forma curiosa, brincando com as possibilidades a cada nova curva do registro. Difícil não lembrar do primeiro álbum de estúdio do Metá Metá, lançado em 2011, efeito da permanente sensação de descoberta que acompanha o ouvinte durante toda a audição do trabalho. Da imagem de capa aos arranjos e versos, Sambas do Absurdo encontra na perversão da normalidade o estímulo para a produção de uma obra dotada de identidade própria.

 

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