"Sapucaí"

Ano: 2018
Selo: Geração Perdida
Gênero: Indie, Sadcore
Para quem gosta de: El Toro Fuerte e Fernando Mota
Ouça: Réveillon, Nome Sujo e Conta Comigo
Nota: 8.0

Resenha: “Sapucaí”, Jonathan Tadeu

Sapucaí é o nome de uma rua em Belo Horizonte, Minas Gerais, que liga os principais bairros da região ao centro da cidade. Ponto de encontro para os jovens da capital mineira, esse cenário físico, real, acaba servindo de inspiração para a poesia subjetiva, por vezes metafórica, que invade o quarto e mais recente álbum de estúdio de Jonathan Tadeu. Versos e melodias contemplativas, como um convite a se perder em um cenário imaterial que parece montado na mente do próprio artista.

Sensível, como tudo aquilo que Tadeu vem produzindo desde o primeiro álbum de estúdio, Casa Vazia (2015), o sucessor do ainda fresco Filho do Meio (2017) encontra no parcial recolhimento dos versos a passagem para um universo essencialmente tocante e autobiográfico, como se o músico sussurrasse experiências pessoais. São histórias de derrotas, reflexões existencialistas, poemas entristecidos e desilusões que transitam entre o pessimismo, a ironia e declarado desejo de mudança.

Eu tenho um orgulho danado / Em ter dado o calote / Numa faculdade em dois bancos … Eu não confio em gente que só se dá bem / Por isso eu quase nunca me dou bem / Dizem que o sarcasmo é arma dos fracos“, cresce a letra de Nome Sujo, um indicativo da poesia madura que serve de sustento à obra. Composições ancoradas em memórias e acontecimentos recentes na vida de Tadeu, porém, sempre próximos do ouvinte, como um diálogo do cantor com o próprio público.

A mesma força dos versos e entrega de Tadeu se reflete em outros momentos da obra. É o caso da inaugural e autocrítica Réveillon (Eu Tive Um Futuro Promissor) (“Eu repito a mesma frase / Até deixar de existir“), o canto amargo de Conta Comigo (“Quanto mais eu me distancio dos meus planos / Mais eu me sinto bem“) ou mesmo a crescente Março (“Os três primeiros três meses do ano são uma merda“). Frações do lirismo agridoce que há tempos vem sendo explorado pelo músico mineiro.

Mesmo nos instantes em que o canto silencia e o poesia reflete reflete conflitos internos, há sempre beleza nas letras declamada por Tadeu. Exemplo disso está na curtinha Interlúdio (“Não tem como desistir. É o único jeito de vingar quem já acreditou nas coisas. Mais do que nunca a gente precisa focar nas pessoas que acreditam na gente. É o único jeito de não ficar louco“), ou mesmo nos instantes finais de Vamo Marcar de Sair (“Prefiro ser ausente do que ser um amigo ruim“).

Produzido e gravado inteiramente pelo músico “durante os jogos da Copa do Mundo de 2018“, Sapucaí talvez seja o trabalho que Jonathan Tadeu mais se aproxima da mesma atmosfera claustrofóbica e intimista que embala o maduro Queda Livre (2016). Entalhes eletrônicos, sempre minimalistas, que se permitem completar pela inserção de guitarras carregadas de efeito, pano de fundo instrumental para o canto abafado do cantor, sempre inclinado a transformar o próprios conflitos em música.

 


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