"Saudade (O Corte 切り)"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Lupe de Lupe e Carne Doce
Ouça: Aquela Mancha e Alfinete
Nota: 8.0

Resenha: “Saudade (O Corte 切り)”, Ventre

Em um intervalo de poucos anos, a Ventre foi de um simples encontro entre diferentes representantes da cena carioca para um dos projetos mais significativos do novo rock brasileiro. E não poderia ser diferente. Da poesia visceral que invade o homônimo debute do grupo ao reforço na construção dos arranjos e temas instrumentais assinados em conjunto entre Hugo Noguchi (baixo), Larissa Conforto (bateria) e Gabriel Ventura (voz e guitarra), cada elemento que compõe o universo particular do trio parece pensado para hipnotizar o ouvinte.

Último trabalho de inéditas antes do encerramento temporário das atividades do grupo — os membros da banda decidiram investir em seus projetos paralelos —, Saudade (O Corte 切り) (2018, Independente) preserva a mesma energia e crueza do álbum que o antecede, porém, dentro de uma nova estrutura poética. Na contramão do lirismo lascivo e intensidade explícita em músicas como Quente e Carnaval, cada uma das quatro faixas que recheiam o derradeiro registro transportam o som produzido pelo grupo carioca para um território consumido pela dor e permanente senso de afastamento entre os indivíduos.

E acho que eu, eu não me conhecia tanto quanto eu dizia pra mim mesmo / Quando eu tentava enganar a todo mundo / Que não havia algo de podre em mim / Que eu não podia ser tão ruim assim“, canta em O Corte, um indicativo da poesia amarga que ganha forma ao longo do trabalho. São composições guiadas pela completa melancolia do eu lírico, versos que passeiam por relacionamentos fracassados e instantes de profunda vulnerabilidade, como um permanente exorcizar das próprias experiências e conflitos particulares.

Exemplo disso ecoa com naturalidade na derradeira Alfinete. Pouco mais de sete minutos em que a poesia angustiada de Ventura se espalha em meio a camadas de pura distorção, fúria e instantes de breve recolhimento. “E é mais fácil começar do zero que consertar o que quebrou / Se tornar caça e caçador de si / Pra não se curar demais / Se esquecer não é o que te faz inteiro“, reflete em meio a versos ora cantados, ora declamados, lembrando o mesmo direcionamento torto que marca o trabalho de artistas como Lupe de Lupe e Jair Naves.

Composições sempre inquietantes, proposta que ecoa mesmo na curtinha Pulmão, música declamada por Conforto — “Livros não lidos não ensinam nada / Mesmo eu, cheia de ideias / De que sirvo sem o grito?” —, e, principalmente, na inaugural Aquela Mancha. Típica criação da Ventre, a faixa guiada pela fluidez das batidas parece maior a cada nova audição, mergulhando no descritivo fim de relacionamento que acaba se revelando ao longo dos versos — “Quero te ver é da platéia / E sentir a inveja boa que isso dá / Quero te ver sorrindo de longe“.

Pensado para além do limite das quatro faixas entregues pela banda, o trabalho ganha ainda mais força no registro visual e texturas eletrônicas que contam com a assinatura do diretor Gabriel Rolim (Boogarins, Tim Bernardes). Mesmo as capas de cada single se conectam de forma a revelar um único pôster, projeto gráfico concebido pelo ilustrador Victor Reis. Frações estéticas que servem de complemento à poesia triste e força instrumental que orienta a experiência do ouvinte até o último instante, fazendo de Saudade (O Corte 切り) uma delicada e complexa carta de despedida.

 


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