"Seat at Night"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Pop Psicodélico, Synthpop
Para quem gosta de: Unknown Mortal Orchestra e Washed Out
Ouça: Between Jupiter and Mars e Friend Zone Forever
Nota: 8.0

Resenha: “Sea at Night”, Glue Trip

Em um universo de artistas preguiçosos, cada vez mais embriagados pela psicodelia do grupo australiano Tame Impala, os integrantes da banda paraibana Glue Trip parecem seguir um conjunto de regras próprias. Sem necessariamente fixar residência em gênero ou conceito específico, o quarteto de João Pessoa passou os últimos anos brincando com as possibilidades dentro de estúdio, versatilidade que se reflete em cada uma das nove faixas pensadas para o lisérgico Sea at Night (2018, Independente).

Primeiro registro autoral desde o homônimo álbum de 2015, o trabalho concebido ao longo dos últimos meses, sem pressa, faz de cada composição um objeto curioso, como se cada integrante da banda — hoje formada por Lucas Moura (guitarra e voz), Felipe Lins (guitarra), Gabriel Araújo (baixo e voz), CH Malves (bateria e pad) e Rodolfo Salgueiro (teclado, sample e voz) —, fosse responsável por acrescentar uma fina pincelada instrumental e poética ao projeto. Composições que atravessam a música brasileira dos anos 1960 e 1970 para dialogar com a psicodelia eletrônica dos anos 2000, lembrando um improvável encontro entre Gilberto Gil e Washed Out.

Perfeita combinação dessa criativa colagem de ritmos ecoa com naturalidade em Time Lapses. Escolhida para anunciar a chegada do trabalho, a faixa de quase seis minutos de duração se espalha em meio a melodias arrastadas, guitarras carregadas de efeito e transições que vão do reggae ao R&B empoeirado de nomes como Unknown Mortal Orchestra. Um som delirante, mágico, cuidado que se reflete nas camadas de sintetizadores ou mesmo vozes sobrepostas que acabam servindo como delicado pano de fundo para a canção.

Concebida em parceria com a cantora e compositora norte-americana Joy J Music, Friend Zone Forever é outra faixa que chama a atenção do público pela completa imprevisibilidade dos arranjos e fórmulas instrumentais. Uma mistura que atravessa a música disco, se espalha em meio a camadas de sintetizadores e efeitos psicodélicos para desembocar em um pancadão carioca marcado pela quentura das batidas. Um verdadeiro turbilhão criativo, proposta que cresce de forma expressiva na colorida Between Jupiter and Mars, extensão madura de tudo aquilo que o grupo paraibano vem produzindo desde o EP Just Trippin’ (2013).

Mesmo quando se esquiva dessa pluralidade rítmica, como nas inaugurais Fancy e Waves, Sea at Night preserva o próprio brilho, seduzindo o ouvinte sem grandes dificuldades. Composições talvez menores quando próximas dos instantes de maior invenção da obra, lembrando em excesso os trabalhos de estrangeiros como Toro Y Moi e Neon Indian, porém, ainda convincentes. Melodias e fórmulas delirantes que resultam em um criativo, ainda que previsível, jogo de ideias.

Dividido entre instantes de maior entrega (Between Jupiter and Mars, Friend Zone Forever) e composições marcadas pela parcial quietude (Honey, E.W.W.T.), Sea at Night joga com os clichês da música psicodélica, porém, em uma linguagem própria da Glue Trip. São variações instrumentais, colagens montadas a partir de diferentes ritmos e experimentações que não apenas confessam algumas das principais influências da banda paraibana, como delicadamente auxiliam na formação de uma identidade musical própria do grupo.