"Serra dos Órgãos"

Ano: 2017
Selo: LAB 344
Gênero: Experimental, Alterativo
Para quem gosta de: Moreno Veloso e Kassin
Ouça: Voltar-se e Tudo ao redor
Nota: 8.0

Resenha: “Serra dos Órgãos”, Domenico Lancellotti

Em Serra dos Órgãos (2017, LAB 344), Domenico Lancellotti parece seguir o caminho oposto ao universo musical desbravado no antecessor Cine Privê (2011). Livre da aceleração, delírios eróticos e força do trabalho entregue há seis anos, o cantor, compositor e baterista fluminense encontra no presente álbum uma espécie de refúgio instrumental e criativo. Melodias e vozes marcadas pela parcial serenidade, contínuo experimento e busca declarada por novas possibilidades.

Curioso, como tudo aquilo que Lancellotti vem produzindo desde o colaborativo Sincerely Hot (2003), parceria com Moreno Veloso e Kassin dentro do projeto +2, o trabalho montado a partir de recortes isolados sustenta em cada fragmento musical um conceito específico. Instantes em que o artista aposta no minimalismo e leveza dos arranjos (Árvores), ao mesmo tempo em que preserva a forte relação com o uso de temas eletrônicos e flertes com a década de 1970 (Shanti Luz).

Com Voltar-se como faixa de abertura, o músico fluminense não apenas sintetiza o conceito particular que sustenta a poesia do disco — “Indo dormir é voltar-se pra dentro / Sonhar é voltar-se, também / Pensar é voltar-se pra dentro / E para morrer” —, como revela a completa versatilidade dos arranjos. Uma ambientação inicialmente serena, acolhedora, porém, transformada pela lenta inserção de batidas fortes, resultando em um jogo contrastado de pequenas sobreposições.

Em The good is a big God, terceira faixa do disco, um mergulho no universo das trilhas sonoras. Exatos três minutos de um som orquestral, minucioso, passagem para a breve interferência da veterana Nina Miranda. Um estímulo natural para a poesia descritiva que chega na sequência com a doce Tudo ao Redor, composição marcada pela colagem de temas cotidianos que crescem na voz do parceiro de longa data, o cantor e compositor Moreno Veloso.

Ao avançar pelo trabalho, Lancelloti continua se aprofundando no uso de pequenas experimentações. É o caso de Pare de Correr, bem-sucedida parceria com Pedro Sá que resulta na formação de um registro quase tribal, efeito do curioso diálogo entre batidas, vozes e arranjos cíclicos. Surgem ainda músicas a sufocante Dama da Noite e a eletroacústica Logo, colaboração com Sean O’Hogan que poderia facilmente ser encontrada em algum trabalho do norte-americano Beck.

Completo pela forte interferência de Marlon Sette, Bruno Di Lullo, Stéphane San Juan e demais representantes da cena carioca, Serra dos Órgãos joga a todo instante com as incertezas. Arranjos orquestrais, passagens rápidas pela bossa nova, fragmentos eletrônicos e diálogos improváveis com o rock. Um convite a visitar a mente e as experiências que há mais de uma década bagunçam criativamente o trabalho de Lancellotti.

 

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