"Simulacre"

Ano: 2018
Selo: DoSol
Gênero: Pop, Alternativa, Indie
Para quem gosta de: Pabllo Vittar e Urias
Ouça: Karamba, Plene e Lambada do Flop
Nota: 7.7

Resenha: “Simulacre”, Potyguara Bardo

Simulacre (2018, DoSol) é uma obra estranha. Fuga declarada do som plástico que parece orientar o trabalho de outros tantos representantes do pop nacional, a estreia da drag queen norte-riograndense Potyguara Bardo dança pelo campo do incerto de forma a estimular a fragmentação das ideias. Retalhos poéticos, instrumentais e estéticos que se entrelaçam sem ordem aparente, ponto de partida para cada uma das nove faixas que brincam com interpretação do ouvinte durante toda a execução do álbum.

Produto da colaboração entre os músicos Walter Nazário (Mahmed), Dante Augusto, Mateus Tinôco e José Aquilino, esse último, compositor e grande responsável pela personagem holística que dá título à obra, Simulacre encontra na perversão de velhos conceitos o principal componente criativo para o fortalecimento das faixas. São variações rítmicas que atravessam o pop radiofônico de Pabllo Vittar para dialogar com elementos do reggae, brega e música eletrônica de forma propositadamente incerta, torta.

De essência lisérgica, tema reforçado logo nos primeiros minutos do disco, na divertida narrativa entre Bardo e a gerente de um restaurante, Simulacre sustenta no lirismo cômico o principal elemento de conexão entre as faixas. Da busca por um novo romance, em Karamba, colaboração com Kaya Conky (“Que delícia / É da minha cidade / Acho que encontrei meu amor de verdade / Pai dos meus filhos / Deu uma vontade / Ascendente de sarrar“), à completa desilusão que invade Balada do Flop, música que utiliza trechos do viral Será Que Eu Estou Na Lagoinha?, perceba como Aquilino mantém firme a poesia bem-humorada durante toda a execução da obra.

São letras marcadas pela temática existencialista, como na derradeira Você Não Existe (“Você não existe / E eu também não / Tudo que tem nessa vida é fruto da imaginação“); o lirismo explícito, em Mamma Mia (“Sou uma peça rara de uma leva especial / No meio das minhas coxas guardo algo colossal … Não contemplo a existência nem penso na depressão / Eureca de cu é pica vem sentar no cabeção“), além, claro, de versos que parecem pensados para grudar na cabeça do ouvinte, conceito explícito na já citada Karamba (“Com esse rostinho / Teu olhar me faz pleno / Boy eu quero te add / E eu fico tipo / Kaka,kaka,kaka,kaka,kaka,kaka,kaka, ka karamba!“).

Claro que nem todas as músicas do disco parecem seguir a mesma trilha cômica. É o caso do pop romântico que invade a agridoce Oasis (“Mas eu sei que você não me quer / Me afobei quando meu beijo retribuiu / Não faz mal, benzinho não vou lhe incomodar / 1001 rejeições já precisei encarar“), uma das canções mais preciosas do disco. O mesmo acontece no encontro com Luisa e os Alquimistas, em Plene, composição marcada pelo forte aspecto contemplativo dos versos (“Foi libertador poder me enxergar / Depois que desliguei a lanterna da culpa / E vi meu reflexo se desintegrar / Virando uma serpente segurando uma fruta“).

Passagem direta para um universo próprio da artista norte-riograndense, direcionamento explícito logo na imagem de capa do disco, Simulacre se divide a todo momento entre a realidade e o delírio. O próprio título da obra — um neologismo formado a partir das palavras “simulacro” e “lacre” —, diz muito sobre o conceito desbravado no decorrer da obra. Composições que transitam entre crises existenciais e a necessidade do eu lírico em se encontrar criativamente, proposta que faz da estreia de Potyguara Bardo uma das obras mais inventivas (e loucas) que surgiram nos últimos meses.



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