"Singularity"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: Eletrônica, Ambient, Ambient Techno
Para quem gosta de: Four Tet e Boards of Canada
Ouça: Everything Connected e Singularity
Nota: 8.5

Resenha: “Singularity”, Jon Hopkins

Poucos artistas parecem entender e replicar de forma tão criativa e as ambientações eletrônicas criadas por Brian Eno quanto Jon Hopkins. Confesso seguidor do artista britânico, o produtor que já trabalhou ao lado de Eno em obras como Small Craft on a Milk Sea (2010) e Viva la Vida or Death and All His Friends (2008) continua a revisitar o passado de forma autoral, sempre curiosa, brincando com a lenta desconstrução do universo apresentado pelo veterano da cena inglesa entre o final dos anos 1970 e início da década seguinte.

Quinto e mais recente álbum de inéditas produzido por Hopkins, Singularity (2018, Domino) talvez seja o trabalho em que toda essa relação com a música ambiente seja tratada de forma menos referencial e nostálgica, como se Hopkins encontrasse a própria identidade. Instantes de profunda calmaria que antecedem o formação das batidas, ruídos metálicos e fórmulas instrumentais guiadas em essência pela ruptura, como uma extensão natural de tudo aquilo que o produtor vem experimentando desde o álbum anterior, Immunity (2013).

Exemplo disso está na lenta composição das duas primeiras músicas do trabalho, Emerald Rush e a própria faixa-título. São pouco mais de 12 minutos em que Hopkins se deixa guiar pela inserção de sintetizadores etéreos, propositadamente arrastados, ponto de partida para a inserção de vozes, melodias e frações minimalistas que forçam uma audição atenta por parte do ouvinte. Camadas e mais camadas de ruídos eletrônicos que ainda servem de estímulo para a construção de batidas, transportando o álbum para um território parcialmente dançante.

Em Everything ConnectedLuminous Beings, duas das canções mais extensas do álbum, uma criativa representação do esforço de Hopkins em revisitar o passado, porém, sempre mergulhando em um ambiente autoral. Instantes em que o produtor flerta com elementos do pós-rock, prova da mesma IDM de Boards of Canada e Four Tet e, lentamente, se perde em um universo de maquinações abstratas, conduzindo o ouvinte em meio a um território guiado pela incerteza. Colagens e variações rítmicas que lembram a passagem do artista pela série Late Night Tales, em 2014.

Curioso perceber nos momentos em que mais se aproxima de Eno, rompendo com a própria estética, o ponto de maior refinamento da obra. Difícil não se deixar conduzir pelo minimalismo inebriante de faixas como Feel First Life, C O S M e Echo Dissolve, canções em que Hopkins se afasta das batidas e temas eletrônicos para flutuar por entre melodias tímidas de um piano. Uma leveza rara, mágica, que faz lembrar de Aphex Twin em músicas como Avril 14thaisatsana [102], essa última, claramente inspirada nas pinceladas acústicas do clássico Ambient 1: Music for Airports (1978).

Coeso quando próximo de tudo aquilo que vem desenvolvendo nos últimos anos – vide parcerias com Purity RingDisclosureBat For Lashes e London Grammar –, Singularity mostra o esforço de Hopkins em trabalhar o álbum dentro de uma estrutura homogênea, como se cada faixa servisse de base para a canção seguinte. Da imagem de capa ao uso aproximado das melodias, batidas e bases cósmicas que orientam o ouvinte até a derradeira Recovery, uma obra de limites bem-definidos, porém, imensa na forma como camadas ocultas e temas instrumentais se escondem ao fundo de cada composição.

 


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