"Sinto Muito"

Ano: 2018
Selo: Balaclava Records
Gênero: Pós-Rock, Rock Alternativo, Dream Pop
Para quem gosta de: Kalouv, Terno Rei e ruído/mm
Ouça: Vazia, Leli e Bosque
Nota: 8.6

Resenha: “Sinto Muito”, Mahmed

Em Sobre a Vida em Comunidade (2015), primeiro registro em estúdio do grupo potiguar Mahmed, cada fragmento do disco parece pensado de forma calculada. Movimentos precisos, vozes contidas e pinceladas instrumentais que se entrelaçam de forma atmosférica, como se cada composição do disco servisse de base para a faixa seguinte, convidando o ouvinte a se perder em um imenso labirinto sensorial. Instantes de pura minúcia e leveza, proposta que assume novo direcionamento estético nas canções de Sinto Muito (2018, Balaclava Records), segundo e mais recente álbum de inéditas do quarteto de Natal, Rio Grande do Norte.

Concebido a partir de pequenos recortes instrumentais, variações rítmicas e vozes assumidas por um time seleto de colaboradores, o trabalho de 11 faixas parece mudar de direção a todo instante, sem ordem aparente, fazendo da incerteza dos elementos a única garantia para o ouvinte. Exemplo disso ecoa com naturalidade na introdutória música de abertura do álbum. Pouco mais de um minuto em que melodias eletrônicas passeiam em meio a fragmentos extraídos de programas de TV e até trechos do filme Clube da Luta — “Todos nós fomos criados vendo televisão para acreditar que um dia todos seríamos milionários, e deuses do cinema, e estrelas do rock Mas nós não somos. Devagar vamos aprendendo isso“.

Trata-se de uma obra guiada pelo permanente senso de ruptura, como se cada composição do disco fosse montada a partir criativa sobreposição de ideias e ritmos. Canções que apontam para o rock alternativo da década de 1990, como em Cheio; melodias contidas que se espalham em meio a variações intimistas, caso de Perdi e a acústica Enquantico Fino; ambientações enevoadas que jogam com a psicodelia de forma sutil, conceito reforçado com naturalidade em Leli, parceria entre a banda potiguar e a cantora norte-americana Molly Hamilton, do Widowspeak.

Um sem-número de referências, colagens e fórmulas instrumentais que refletem o desejo dos músicos Dimetrius Ferreira (guitarra e violão), Walter Nazário (guitarra, violão e sintetizadores), Ian Medeiros (bateria) e Leandro Menezes (baixo) em avançar criativamente dentro de estúdio. Composições movidas pelos detalhes, como em Vazia, um dream-pop-jazzístico que aponta para o mesmo universo soturno de The Ooz (2017), último trabalho de inéditas do britânico King Krule. Em Lo Siento, parceria com Luisa Nascim, um rock ensolarado que aponta para a década de 1970, lembrando uma interpretação torta da obra de Marcos Valle.

Mesmo quando regressa ao som atmosférico testado em Sobre a Vida em Comunidade, Sinto Muito não custa a revelar um fino componente de mudança. São inserções pontuais, ruídos eletrônicos e vozes marcadas por poemas contemplativos. Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade em Bosque, terceira faixa do disco. Concebida em meio a guitarras climáticas, emulando a boa fase de veteranos como Slint, a canção logo se perde em meio a abstrações inebriantes e vozes em russo extraídas da misteriosa estação de rádio UVB-76. Um curioso cruzamento de ideias que se repete com a mesma intensidade em músicas como Cheio, Descobri e a derradeira La Disciplina, com suas incontáveis curvas instrumentais.

Último trabalho de estúdio do grupo potiguar com a presença de Dimetrius Ferreira — Rodolfo Almeida passa a assumir a função de guitarrista da banda —, Sinto Muito revela a público uma seleção de faixas marcadas pelo frescor e permanente senso de descoberta. São décadas referências, diferentes conceitos e preferências que se cruzam de forma sempre provocativa, proposta que vinha sendo testada pelo quarteto desde o EP Ciao, Inercia (2016), porém, ampliada a cada nota ou arranjo torto que serve de sustento ao presente disco.

 


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