"Sintoma"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Indie, MPB, Folk
Para quem gosta de: Marcelo Camelo e Cícero
Ouça: O Peso do Meu Coração e Cara a Cara
Nota: 8.5

Resenha: “Sintoma”, Castello Branco

Existe uma leveza rara no som produzido por Castello Branco. Em um cenário dominado por ambientações instrumentais sempre contidas, por vezes bucólicas, versos marcados pela forte religiosidade se encontram com conflitos existenciais e ainda discutem relacionamentos de maneira sempre esperançosa, criando a todo instante brechas para o amor. Composições que sutilmente escapam dos domínios do artista, dialogando de maneira explícita com o ouvinte, sensação reforçada desde a estreia do músico carioca com o elogiado Serviço (2013).

Dentro desse mesmo território, sem pressa, Lucas Domênico Castello Branco Gallo, verdadeiro nome do artista e ex-integrante da banda R. Sigma, passou os últimos quatro anos esculpindo cada uma das canções que abastecem o segundo álbum em carreira solo, Sintoma (2017, Independente). Trata-se de uma clara continuação do material apresentado no primeiro registro de inéditas do músico, como um convite a reviver grande parte das experiências ora cantados, ora sussurrados pela voz andrógina de Castello Branco. Uma obra que sobrevive dos sentimentos e emoções detalhadas em cada fragmento poético.

Econômico na construção dos arranjos, talvez pensado para as apresentações ao vivo do músico, quase sempre regidas pela estrutura intimista dos arranjos e versos, Sintoma cresce vagaroso, em uma medida própria de tempo. Vozes, violões, batidas, sintetizadores e entalhes percussivos detalhados com extrema delicadeza, como um complemento direto ao canto brando do artista. Frações que se conectam ao todo, como na inaugural O Peso do Meu Coração, em que os versos cíclicos acabam servindo de escada para o refrão hipnótico, quase um mantra (“Fica mais leve / O peso do meu coração“).

Menor quando próximo de músicas como Crer-Sendo e Necessidade, perfeitas representações do trabalho passado, Sintoma encanta justamente pelo profundo recolhimento. Da poesia esperançosa de Cara a Cara (“Quem sorrir bonito é que nasceu pra ser feliz / Você sorriu / É tudo seu, todo o amor / Quem não quer ser feliz?“), ao canto melancólico que detalha o conflito de um casal em Não Me Confunda (“O teu amor se foi de graça / Se eu fosse esperar o que você me prometeu / Ardia mais“), versos de essência confessional crescem em um reduto plano acústico, valorizando cada nota ou sussurro lírico.

Mesmo o time de artistas convidados a colaborar ao longo da obra se entregam ao conceito sutil das canções. Prova disso está na lenta sobreposição dos versos que marcam Previdência, encontro musical com a conterrânea Mãeana; experimentos controlados com a voz em Nascer do Sômm, parceria com Filipe Catto, ou mesmo na derradeira Assume, faixa dividida com Tô. Apenas Verônica Bonfim, voz de apoio em Do Interior, rompe com essa lógica, fazendo da colorida composição uma espécie de passagem para o mesmo ambiente montado no antecessor Serviço.

Talvez particular na construção dos versos, Sintoma carrega nos arranjos e toda a base instrumental do disco o cuidado típico de uma obra coletiva. Junto de Castello Branco, nomes conhecidos da cena carioca, caso de Lôu Caldeira, Pedro Garcia e Patrick Laplan, além, claro, dos músicos Tomás Tróia (violão, guitarra e programação), Ico dos Anjos (flauta transversal, piano, sintetizadores e programação), Thiago Barros Leal Trindade (baixo) e Ricardo Braga (percussão). Colaboradores convidados a ampliar, mesmo no minimalismo da obra, o universo que vem sendo explorado pelo cantor desde o primeiro álbum de estúdio.

 

Veja também:


One thought on “Resenha: “Sintoma”, Castello Branco

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend