"Soil"

Ano: 2018
Selo: Secretly Canadian / Tri Angle Records
Gênero: Soul, R&B, Alterntativa
Para quem gosta de: ANOHNI e Arca
Ouça: Cherubim e Seedless
Nota: 8.0

Resenha: “Soil”, Serpentwithfeet

A grande beleza no trabalho de Josiah Wise sempre esteve relacionada ao uso minucioso da voz. Não por acaso, quando lançou o primeiro registro autoral como Serpentwithfeet, Blisters (2016), o músico que passou grande parte da adolescência e início da vida adulta se aprofundando no estudo de canto lírico fez de cada fragmento do álbum uma peça orquestrado pelas harmonias vocais. Da lenta inserção das batidas ao uso de temas orquestrais, cada elemento se projeta a partir dos versos contemplativos lançados pelo artista.

Satisfatório perceber nas canções de Soil (2018, Secretly Canadian /Tri Angle Records), primeiro álbum de estúdio do músico norte-americano, o mesmo comprometimento e delicado uso da voz. São melodias atmosféricas, sempre minimalistas e complementares que se abrem para o canto entristecido de Wise. Uma solução de versos tão amargos quanto libertadores, sempre guiados pela dualidade (sexual e emocional) do amor.

De fato, tão logo tem início, na delicada Whisper, Wise brinca com as incertezas da vida a dois de forma intimista, revelando a formação de um personagem constantemente dividido entre a efemeridade do sexo e a longevidade do acolhimento amoroso. “Nem todos os adultos estão fazendo amor, quebrando as costas por medo, estou aqui com você / Eu sei que você se sente velho demais / Mas se você sussurrar só eu vou te ouvir“, canta em um ato de profunda confissão romântica, conceito explorado durante toda a execução do trabalho.

São canções marcadas pelo peso da separação, como em Seedless (“Eu amo rastejar, mas você está se quebrando / Posso fazer sua refeição favorita antes de sair?”); poemas em que o músico interpreta o amor como um ato de profunda louvor, vide Cherubim (“Eu me sinto crescendo / Costurar o amor em você é o meu trabalho“), e até mesmo faixas em que a melancolia e candura dos versos se confunde a todo instante, como na derradeira Bless Ur Heart (“Obrigado por me mostrar como ser gentil / Eu tenho coragem de compartilhar seu amor corajosamente“). Um permanente desvendar da alma romântica.

O mais interessante talvez seja perceber que mesmo centrado em um tema específico, Soil está longe de parecer uma obra monotemática. Seja pelo uso orquestral da voz ou na forma como interpreta os próprios sentimentos, Wise mantém o frescor e movimentação fluida do álbum até o último segundo. Um exercício minucioso, reflexo da profunda entrega do músico, além, claro, da permanente interferência de nomes como Clams Casino, Paul Epworth e, principalmente, Katie Gately, co-produtora do disco.

Feito para ser desvendado aos poucos, sem pressa, Soil vai da música gospel ao pop/R&B em uma linguagem própria, essencialmente sensível. É como se Wise flutuasse por entre as brechas românticas de nomes como ANOHNI, Björk e Arca, coletando temas e sentimentos delicadamente explorados por diferentes artistas, porém, dentro de uma linguagem particular, ampliando parte significativa do universo poético/instrumental originalmente testado durante o lançamento de Blisters.