"Soltar os Cavalos"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie, Alternativa, MPB
Para quem gosta de: Letrux e Luiza Brina
Ouça: Estrela, 30 Anos e Eu Sou Mulher
Nota: 8.1

Resenha: “Soltar os Cavalos”, Julia Branco

“Eu sou mulher
E isso só me amplia
Não cabe numa palavra
Por tudo que acerta
Que erra”

Mesmo longe de parecer a principal música de Soltar os Cavalos (2018, Independente), estreia em carreira solo da cantora e compositora mineira Julia Branco, Eu Sou Mulher, quarta composição do disco, diz muito sobre o material entregue pela artista. São poemas musicados que refletem os diferentes espectros da alma feminina. Instantes guiados pela autodescoberta do eu lírico, versos existencialistas, incertezas e gritos de libertação pessoal que acompanham o ouvinte até a derradeira Cheia de Dobras.

Mais conhecida pelo trabalho como integrante da banda mineira Todos Os Caetanos do Mundo — com quem lançou o bom Pega a Melodia e Engole (2015) —, em nova fase, Branco segue uma trilha diferente dos antigos registros autorais. Enquanto os versos detalham as experiências particulares e interpretações sobre ser mulher, musicalmente, o álbum aponta para novas direções. Recortes minimalistas que se aproximam do jazz, sutilmente corrompem a MPB tradicional e fazem da voz o principal componente da obra.

Sou forte / Sou grande / Sou do tamanho do medo / Aqui / Não me dói nada / Aqui / Não passa nada“, canta na introdutória Sou Forte, composição guiada e essência pelo vocal forte, limpo e decidido de Branco, porém, lentamente acrescida de delicadas inserções instrumentais. A linha de baixo destacada, sempre climática, pianos pontuais e batidas abafadas. Um estímulo breve para o material que chega na sequência, com Estrela, outro ato de profunda entrega da cantora mineira — “Nunca pensei que seria cavala / Num galope certeiro saltando essa vala / Eu vou“.

Parte dessa estrutura nasce da forte interferência dos parceiros Chico Neves e Luiza Brina durante toda a execução da obra. Enquanto o primeiro, produtor que trabalhou ao lado de nomes como Los Hermanos e Skank, assume a composição dos arranjos e produção do álbum, Brina, também integrante da Graveola e o Lixo Polifônico, ocupa todas as brechas do registro, versátil, tocando parte expressiva dos instrumentos. O resultado dessa parceria está na formação de um material que encolhe e cresce a todo instante, valorizando todas as nuances e poemas musicados de Branco.

Obra de sentimentos e versos contemplativos, conceito reforçado com naturalidade na mística Peixes (“Eu sempre quis mais / um pouco mais do que parece ser real / eu gosto muito de um delírio / Bem surreal“), Soltar os Cavalos ainda se abre para a chegada de um expressivo time de convidados. São nomes como Paulo Santos (Uakti), a cantora Uyara Torrente (A Banda Mais Bonita da Cidade) e, principalmente, Letícia Novaes (Letrux), parceira de Branco em uma das principais faixas do disco, a libertadora 30 Anos — “Quero dançar / Não vou ter medo de viver / Tampouco de amar“.

Pensado para além dos limites do estúdio em que foi gravado, Soltar os Cavalos ganha ainda mais destaque na série de vídeos concebidos especialmente para o álbum. São interpretações estéticas concebidas por cinco diretoras diferentes — Luísa Horta (Sou Forte), Raquel Pinheiro (30 Anos), Samanta do Amaral (Eu Sou Mulher), Julia Zakia (Meu Corpo) e Sara Lana (Coisas). Frações poéticas, sonoras e visuais que se entrelaçam de forma essencialmente sensível, sempre íntimas do ouvinte, ampliando os domínios e força do trabalho orquestrado pela voz de Branco.

Eu sou mulher
Porque carrego uma flecha
Que aponta pra uma pergunta
Por tudo que abre
Que fecha

 


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend