"Songs of Praise"

Shame

Ano: 2018
Selo: Dead Oceans
Gênero: Rock, Pós-Punk
Para quem gosta de: IDLES e Parquet Courts
Ouça: One Rizla e The Lick
Nota: 7.0

Resenha: “Songs Of Praise”, Shame

De tempos em tempos, alguma jovem banda, normalmente britânica, chega para ocupar o permanente título de “novos salvadores do rock”. Foi assim com o Arctic Monkeys na segunda metade dos anos 2000, The Vaccines na virada para a presente década e tantos outros projetos que tão rápido surgem, logo desaparecem. Queridinha da vez, a londrina Shame fez do debute Songs of Praise (2018, Dead Oceans) um dos trabalhos mais comentado das últimas semanas, mas será que há algo de verdadeiramente interessante no som produzido pelo grupo?

Conceitualmente próximo de outros projetos recentes, como IDLES, Girl Band e Holograms, o quinteto formada por Charlie Steen (voz), Sean Coyle-Smith (guitarra), Eddie Green (guitarra), Josh Finerty (baixo) e Charlie Forbes (bateria) vai do rock cru produzido no final dos anos 1970 ao som que marca o início da década de 2000 de maneira frenética, sempre pulsante. Uma colagem de tendências pouco reflete novidade, porém, em nenhum momento parece desgastada.

Do momento em que tem início, em Dust On Trial, passando pela inserção de guitarras e batidas rápidas de Concrete, versos semi-declamados em The Lick, o punk seco na curtinha Donk, ou mesmo a atmosfera densa de Angie, faixa de encerramento do disco, cada segundo dentro de Songs of Praise parece pensado para acertar o ouvinte em cheio. Muito disso vem da explícita nostalgia imposta pela banda durante toda a execução da obra. Construções instrumentais que emulam a obra de veteranos do pós-punk, como The Fall (Tasteless), e até Blur (Friction).

Dentro desse universo de pequenas conexões criativas e explícita referência, o grande mérito do trabalho acaba ficando por conta dos versos. São composições marcadas pelo permanente descontentamento do eu lírico, a descrença no amor e nas relações pessoais, além de versos sujos que passeiam por um cenário urbano, como uma Londres tão decadente quanto no final dos anos 1970. Uma poesia naturalmente honesta como os versos de One Rizla, terceira faixa do álbum, parecem reforçar.

Importante notar que mesmo “punk” na postura e na construção dos versos, Songs of Praise está longe de parecer uma obra caótica. Pelo contrário, explícito é o cuidado de cada integrante da banda na formação dos arranjos. Atos marcados que se abrem para a inserção dos instrumentos e vozes, reflexo do profundo amadurecimento do grupo em estúdio. Basta voltar os ouvidos para Concrete, segunda faixa do disco, e perceber o cuidado na inserção das guitarras. Mesmo canções enérgicas, como Lampoon, estão longe parecer descuidadas, lembrando a mesma precisão instrumental dos trabalhos do Parquet Courts.

Para além do exagero e explícita adoração da imprensa inglesa — vide a famigerada nota 100 dada pela NME ao disco —, Songs of Praise cumpre apenas com sua função de apresentar ao público o som produzido pelo Shame. Trata-se de uma clara obra de ideias e pequenas experimentações, como se cada composição servisse de passagem para um novo território criativo, reflexo de uma banda ainda em busca de identidade, porém, segura na forma como vem desenvolvendo o próprio trabalho.