"Sonorosa"

Ano: 2018
Selo: EAEO Records
Gênero: Maracatu, Folk, MPB
Para quem gosta de: Siba e Eddie
Ouça: O Cirandeiro, Eficiente e Sonorosa
Nota: 8.5

Resenha: “Sonorosa”, Mestre Anderson Miguel

Da batida, nasce o canto e tem início a comoção. Ouvir Sonorosa (2018, EAEO Records), terceiro e mais recente álbum de estúdio de Mestre Anderson Miguel, é como se transportar para o ambiente dominado pelas cores, ritmos e sorrisos que marcam os cortejos de Maracatu. Vindo de uma longa tradição de mestres cirandeiros, o artista, hoje com 22 anos, resgata décadas de referências em meio a ensaios e encontros de Maracatu de Baque Solto na Zona da Mata de Pernambuco. Um misto de tradição e busca pela própria identidade que garante vida ao rico repertório montado para o álbum.

A primeira vez que eu canto aqui / O povo tá aí, pra me ver cantar / Vamos cirandar Vamos cirandar / Joguei a primeira ciranda no ar“, canta logo nos primeiros minutos do disco, em No Ar, um convite a se perder pelo universo conceitual que cresce em uma estrutura festiva ao longo da obra. Da voz limpa, brotam histórias, pensamentos e sensações, sempre acompanhadas pela percussão firme e metais que cercam o artista durante toda a execução do registro.

Com produção dividida entre Siba e João Noronha, Sonorosa se abre para a chegada de um time seleto de instrumentistas. São nomes como Felipe Silva e Allan Abadia (trombone), Gui e Amílcar Rodrigues (trompete), Dinho (mineiro e gongué), Albérico (surdo e bombo), Mestre Cabeça (tarol) e Lello Bezerra, junto de Siba, responsável pelas guitarras que recheiam o trabalho. Interferências pontuais, sempre precisas e tratadas como um complemento à voz de Anderson.

Exemplo disso está em Eficiente, quarta faixa do álbum. Enquanto a poesia presta homenagem ao som produzido pela banda — “Aonde passo / Cantando ciranda / A plateia manda / Voltar novamente / Porque o grupo é organizado / Toca ritmado / E é eficiente” –, perceba como os instrumentos ganham forma aos poucos, ocupando um espaço de merecido destaque. Da batida seca, passando pelo colorido naipe de metais à a guitarra africana, cada elemento parece perfeitamente encaixado, cuidado que se reflete na música seguinte, a ecológica Natureza Maltratada, e, principalmente, na extensa faixa-título do disco, com 16 minutos de batidas, apitos e detalhes carnavalescos.

De essência colaborativa, Sonorosa ainda conta com a breve interferência da cantora Juçara Marçal (Metá Metá). São versos pontuais que atravessam a riqueza poética e instrumental de O Cirandeiro, música escolhida para apresentar o trabalho. Em No Hoje E Na Hora, sétima faixa do álbum, uma fina sequência de versos assumidos em parceria com Jorge Du Peixe (Nação Zumbi), co-autor da faixa. A canção ainda se abre para os sintetizadores de Beto Villares, garantindo um toque “futurístico” ao material, como uma fuga explícita do restante da obra.

Dividido entre o canto político (Natureza Maltratada), sentimentos expostos (O Desprezo Machuca o Coração, Princesa) e versos que refletem com naturalidade a força das tradições e da cultura local (Eficiente, O Cirandeiro), Sonorosa amplia de maneira explícita parte do material apresentado por Siba no álbum De Baile Solto (2015). Um reciclar de velhas experiências, ritmos e elementos que a todo momento dialogam com o passado, porém, sustentam na força dos versos um claro diálogo de Anderson com o presente.

 


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