"Stela Campos"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Indie, Folk, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Neko Case, Cat Power e Vashti Bunyan
Ouça: Take Your Time e Hate
Nota: 8.0

Resenha: “Stela Campos”, Stela Campos

Em mais de duas décadas de carreira, sobram registros guiados pelas emoções e sentimentos mais profundos da cantora e compositora Stela Campos. Dona de um rico repertório que vem sendo montado desde o início dos anos 1990, quando esteve envolvida com as bandas Funziona Senza Vapore e Lara Hanouska, a musicista paulistana acabou encontrando em carreira solo a passagem para um universo ainda mais sensível, intimista, cuidado que se reflete em cada uma das dez faixas do novo álbum de inéditas da artista.

Autointitulado, o registro de essência nostálgica aponta para o passado, porém, está longe de parecer uma obra datada, pouco inventiva. Pelo contrário, é como se Stela, mesmo próxima de veteranos do indie-folk-country estrangeiro, como Vashti Bunyan, Neko Case e Joni Mitchell, caminhasse por conta própria, seguindo dentro de uma trilha autoral. Frações instrumentais e poéticas que encontram nos sentimentos e experiências da artista o principal componente criativo do disco, proposta que instantaneamente seduz o ouvinte.

De fato, do momento em que tem início, no folk melancólico de Take Your Time, música que evoca Neil Young em sua melhor fase, Campos de espalha em meio a versos sentimentais que dialogam diretamente com o público sofredor. Pouco menos de 40 minutos em que relacionamentos fracassados, a necessidade de seguir em frente, conflitos internos e temas contemplativos se espalham sem pressa, flutuando em meio a arranjos acústicos e parcos sintetizadores, elemento que garante destaque ao álbum.

A principal diferença em relação a outros lançamentos do gênero, mesmo antigos trabalhos de Campos, como Céu de Brigadeiro (2006) e Dumbo (2013), está no refinamento progressivo dado ao disco. Enquanto a primeira porção do registro flutua em meio a arranjos cuidadosamente planejados em parceria com Clayton Martin (guitarra), Diogo Valentino (baixo), Monstro (teclados) e Felipe Maia (bateria), perceba como a segunda metade do registro se projeta de forma quase raivosa, transportando os sentimentos da paulistana para um novo território.

Partindo dessa estrutura crescente, o homônimo álbum de Campos vai do parcial recolhimento, explícito em músicas como Move On e a sensível Cats, para a formação de um som enérgico, por vezes cru. Exemplo disso está na dobradinha formada por Into The Night e Hate, próximo ao fechamento do disco. Dois atos isolados, mas que se conectam de forma involuntária, efeito claro do direcionamento enérgico dado às batidas e guitarras. Pouco mais de seis minutos cortados apenas pela pergunta da cantora: “muito desafinado?“.

Produto das experiências particulares e nítido amadurecimento criativo da cantora, o novo álbum preserva a essência dos antigos trabalhos de Campos, porém, encanta pelo completo refinamento da poesia e arranjos sutilmente montados para o disco. Perceba como cada composição do disco parece servir de passagem para a faixa seguinte, resultando em uma espiral melancólica e, ao mesmo tempo, acolhedora, como se Campos e os parceiros de banda explorassem todos os limites da obra, sejam eles poéticos ou instrumentais.

 


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