"Sweetener"

Ano: 2018
Selo: Republic
Gênero: Pop, R&B, Soul
Para quem gosta de: Selena Gomez e Troye Sivan
Ouça: Breathin, God Is a Woman e No Tears Left To Cry
Nota: 8.0

Resenha: “Sweetener”, Ariana Grande

Sweetener (2018, Republic) é o típico caso de um disco que já nasce clássico. E não poderia ser diferente. Resultado das experiências e traumas que bagunçaram a vida de Ariana Grande desde o último ano – como o fim do relacionamento com o rapper Mac Miller e, principalmente, o atentado terrorista durante a Dangerous Woman Tour, em Manchester, onde mais de 500 pessoas ficaram feridas e 22 delas morreram –, o sucessor do já maduro Dangerous Woman (2016) se projeta como o produto final de uma lenta escalada criativa que teve início ainda em 2013, durante a produção do elogiado debute Yours Truly.

Decidida, na contramão de outros representantes da música pop recente, como Demi Lovato, Selena Gomez e Miley Cyrus, sempre inclinadas à explorar uma estética diferente a cada novo álbum de inéditas, Grande encontrou no R&B da década de 1990 e inícios dos anos 2000 a principal fonte criativa para os próprios registros autorais. Composições de essência nostálgica, ancoradas de maneira confessa na rica discografia de Mariah Carrey, Destiny’s Child e Whitney Huston, porém, atuais, dotadas de um raro frescor que vai da produção minuciosa à formação dos versos.

Para além de um bem-servido cardápio de hits, Sweetener é um trabalho em que as emoções e sentimentos mais profundos da cantora afloram com maior naturalidade. Da voz limpa e melancólica que abre o disco, em Raindrops (An Angel Cried) – “Quando gotas de chuva caíram do céu / O dia em que você me deixou, um anjo chorou / Oh, ela chorou, um anjo chorou / Ela chorou” –, ao claro desejo em se restabelecer emocionalmente, vide Breathin – “O tempo passa e eu não consigo controlar minha mente / Não sei mais o que fazer, mas você me diz sempre / Apenas continue respirando” –, poucas vezes antes, Grande pareceu tão vulnerável, quebrada e, consequentemente, próxima do ouvinte.

Claro que tamanha melancolia não interfere na composição de faixas menos soturnas e íntimas do material entregue nos antigos trabalhos da cantora. Exemplo disso está no romantismo doce que borbulha por entre os versos de Blazed (“Olhe para você, te amo / Você tem uma luz que você não pode esconder / Sim, você pode ter um rosto diferente / Mas sua alma é a mesma por dentro“), colaboração com Pharrell William, e The Light Is Coming (“A luz está vindo para devolver tudo que a escuridão roubou“), parceria com Nicki Minaj. Rimas e batidas que tingem o álbum com otimismo, direcionamento também explícito no romantismo de R.E.M, uma das canções mais sensíveis da obra (“Antes de falar, não se mova / Porque eu não quero acordar … Você é um sonho pra mim“).

Mesmo quando desaba emocionalmente, como em No Tears Left To Cry, Grande não custa a se reerguer. “Agora estou em um estado de espírito / Que eu quero estar o tempo todo / Não tenho lágrimas deixadas para chorar”, cresce a letra da canção enquanto batidas e sintetizadores perfeitamente alinhados parecem dialogar com eletrônica britânica, reforçando, ainda que de forma sutil, as homenagens da cantora às vitimas do atentado de Manchester. De fato, parte expressiva do que sintetiza Sweetener sobrevive nas brechas do trabalho. Fragmentos instrumentais que ampliam o diálogo da artista com o passado, como na base detalhista de The Light Is ComingBorderline, essa última, colaboração com Missy Elliott que brinca com o R&B eletrônico produzido no início dos anos 2000.

Pop sem necessariamente parecer vazio, deliciosamente complexo, porém, nunca inacessível ao grande público, Sweetener mostra o esforço de Ariana Grande e seus parceiros de produção – como Scooter Braun, Max Martin, Pharrell William e Ilya Salmanzadeh –, em garantir destaque mesmo às composições menos significativas do álbum. Dentro dessa estrutura, atos grandiosos, como God Is A Woman, ou mesmo criações “menores”, caso das econômicas Better Off e Get Well Soon, chegam até o ouvinte com a mesma força, como se Grande explorasse todos os aspectos da própria da identidade artística, fazendo de Sweetener sua obra mais completa.

 


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