"TAKE ME A_PART, THE REMIXES"

Ano: 2018
Selo: Warp
Gênero: R&B, Eletrônica, Soul
Para quem gosta de: FKA Twigs, Kaytranada e ABRA
Ouça: LMK (What’s Really Good Remix)
Nota: 7.8

Resenha: “TAKE ME A_PART, THE REMIXES”, Kelela

Desde o início da carreira, Kelela vem estabelecendo na relação com diferentes produtores e representantes da cena alternativa a base para a construção da própria identidade criativa. De nomes como Jam City, Kingdom e Nguzunguzu, com quem trabalhou na produção da mixtape Cut 4 Me (2013), passando por colaboradores esporádicos, caso de Kindness, Teengirl Fantasy, Danny Brown e Solange, parte expressiva do material que caracteriza a obra da cantora e compositora norte-americana vem dessa permanente relação com outros artistas.

Não por acaso, ao revisitar as canções do elogiado Take Me Apart (2017), primeiro álbum de estúdio da carreira, Kelela decidiu entregar todo esse material a um time seleto de colaboradores. Intitulado TAKE ME A_PART, THE REMIXES (2018, Warp), o registro de quase 80 minutos de duração adapta de forma particular cada uma das 14 músicas que integram a versão original do trabalho. Um olhar curioso sobre a obra, sentimentos e ritmos que há tempos vem sendo explorados pela cantora.

Conceitualmente amplo quando próximo do material apresentado em Hallucinogen Remixes (2015), obra que contou com a presença do brasileiro MC Bin Laden, TAKE ME A_PART, THE REMIXES brinca com a alteração rítmica das batidas e bases na mesma medida em que se abre para a interferência minuciosa de cada colaborador. Onde antes havia o claro desejo de revisitar o R&B dos anos 1990, hoje surgem reinterpretações que transportam a voz de Kelela para novos territórios, vide a versão funkeada de Rare Essence para a faixa-título do disco, ou mesmo a montagem etérea de Serpentwithfeet para Altadena.

Claro que essa busca por novas possibilidades não interfere na produção de músicas que refletem a essência de Kelela. É o caso de Lsdxoxo_Truth Or Dare_123 Bpm, música que amplia o R&B eletrônico que vem sendo testado pela cantora. Uma das melhores composições de Take Me Apart, Waitin passa por um acabamento tão nostálgico quanto transformador nas batidas e colagens de Kaytranada, junto da portuguesa Nídia, na nova montagem para Blue Light, responsáveis pelos momentos de maior frescor da obra.

Quem também se destaca são os produtores Nathaniel W. James e Dave Quam, dupla responsável pela lenta desconstrução de Waitin, faixa que se espalha em meio a nuvens de sons atmosféricos, como um flerte breve com a vaporwave, sensibilidade que ecoa com ineditismo na derradeira Enough, assumida por Ahya Simone. A própria colaboração entre Linn da Quebrada e Badsista, na nova roupagem de Better, tinge o disco com ineditismo, preservando a atmosfera dos antigos trabalhos de Kelela, porém, dentro de uma linguagem genuinamente brasileira, urbana e quente.

Completo pela bem-sucedida colaboração entre Princess Nokia, Junglepussy, CupcakKe e a própria Kelela, em LMK (What’s Really Good Remix), além, claro, de faixas produzidas por nomes como Santa Muerte, Gaika e Joey Labeija, TAKE ME A_PART, THE REMIXES brinca com a experiência do ouvinte a todo instante, manipulando o som meticuloso que embala a versão original da obra. Ideias picotadas, batidas e ritmos que garantem novo significado ao som que vem sendo produzido pela cantora norte-americana.