"Take Me Apart"

Ano: 2017
Selo: Warp
Gênero: R&B, Eletrônica, Soul
Para quem gosta de: FKA Twigs, Björk e ABRA
Ouça: LMK, Waitin e Take Me Apart
Nota: 8.8

Resenha: “Take Me Apart”, Kelela

Em um intervalo de poucos anos, Kelela Mizanekristos deixou de ser apenas a voz de apoio em diferentes projetos da cena norte-americana, caso de Teengirl Fantasy, Kingdom e Kindness, para se transformar em uma das principais representantes do novo R&B. O resultado dessa profunda transformação ecoa de maneira explícita no curto repertório formado pela mixtape Cut 4 Me, lançada em 2013, e, principalmente, no elogiado Hallucinogen EP (2015), ponto de partida criativo para o primeiro álbum de estúdio da cantora, o confessional (e provocativo) Take Me Apart (2017, Warp).

Cercada de velhos colaboradores, caso de Bok Bok, Arca e Jack Latham (Jam City), parceiro de longa data e, junto de Ariel Rechtshaid (HAIM, Carly Rae Jepsen), um dos produtores executivos do disco, Kelela encontra no trabalho uma acolhedora zona de conforto. São temas eletrônicos que garantem ao público uma versão remodelada do Jazz/Soul dos anos 1990, conceito que vem sendo explorado pela artista desde o começo da carreira. Um som futurístico, torto e intimista, reflexo da forte influência de Björk e, mais recentemente, da conterrânea Solange.

Sensível, como tudo aquilo que Kelela vem produzindo desde Cut 4 Me, Take Me Apart joga com os sentimentos da cantora (e do próprio ouvinte) durante toda a execução. Trata-se de um imenso turbilhão emocional, doloroso e honesto que tem início na delicada Frontline (“Por que você está me testando?“), cresce em músicas como Waitin (“Estou tentando empurrá-lo, não me deixe perder agora“) e Blue Light (“Eu imploro seu perdão“), e segue com naturalidade até a derradeira Altadena (“Quando você baixa sua cabeça / Espero que você pense em mim“).

Como indicado na imagem de capa e encarte do disco, uma sessão produzida pelo fotógrafo Daniel Sannwald (Rihanna, M.I.A.), em Take Me Apart, Kelela se revela por completo. “Você não pode ver, amor? / Que eu estou em pé, sozinha? … Já tive o suficiente, agora / Segure sua mão / Seu amor arruinará meu coração?“, canta em Enough, composição que nasce como um reflexo da completa exposição e fino retrato da poesia sensível que abastece o disco. Uma clara continuação do universo sentimental desbravado pela cantora em músicas como Rewind.

O mais interessante talvez seja perceber que mesmo dentro de uma obra monotemática, Kelela está longe de parecer repetitiva. Longe de sufocar em meio a versos tristes, a cantora norte-americana se concentra em explorar todas as nuances de um relacionamento, mergulhando na construção de versos marcados pela forte sexualidade, vide S.O.S. e a própria faixa-título do disco, ou mesmo as tensões típicas um casal, caso de Truth or Dare e Bluff. Nada que se compare ao labirinto emocional de LMK, uma das composições mais acessíveis e ainda complexas já gravadas pela artista.

Costurado pela inserção de pequenas colaborações, caso de Romy Madley Croft (The XX) nos versos da delicada Jupiter, o parceiro de longa data Kwes, produtor em diversas faixas ao longo do álbum, além de nomes como Kelsey Lu, Terror Danjah e outros personagens de peso da cena alternativa, Kelela finaliza uma obra que precisa ser revisitada até ser totalmente absorvida. Uma atmosfera de forte melancolia, desejo, medo e angústia, como se a cantora e os parceiros de estúdio fossem capazes de explorar ao máximo todas as emoções humanas.

 

Veja também:


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend