"Taurina"

Ano: 2018
Selo: Pomm_elo / Scubidu
Gênero: MPB, Samba, R&B
Para quem gosta de: Céu e Tulipa Ruiz
Ouça: Chá de Jasmim, Amor de Vidro e Pastel de Vento
Nota: 8.4

Resenha: “Taurina”, Anelis Assumpção

Da estreia com Sou Suspeita, Estou Sujeita, não Sou Santa (2011), ao colaborativo encontro com os Amigos Imaginários, em 2014, Anelis Assumpção sempre encarou a si mesma como a protagonista da própria obra. Um cuidado que se reflete na completa particularidade dos versos — sejam versões para o trabalho de outros compositores ou mesmo peças autorais —, ao minucioso catálogo de ritmos que embalam o trabalho da artista, principalmente variações do reggae/dub. Elementos que parecem dialogar com o cotidiano, romances, medos e conquistas da paulistana. Nada que se compare à fina exposição poética e sentimental detalhada no terceiro e mais recente álbum da cantora, Taurina (2018, Direto / Scubidu Music).

Inspirado pelas vivências, reflexões e histórias acumuladas por Assumpção nos três últimos anos, Taurina nasce como um curioso exercício da cantora em traduzir musicalmente a própria alma. Para além do campo astrológico detalhado no título e imagem de capa do trabalho — projeto assinada pela artista visual Camile Sproesse —, canções que refletem o poder do feminino, a sexualidade e vulnerabilidade da mulher, estímulo para cada uma das 13 composições que movimentam o disco.

Naquele dia eu te dava na cozinha / Cê gozava e eu fingia que não tinha amor ali / Você tava na cozinha / Eu chorava, cê fingia que não tinha amor ali“, canta em Chá de Jasmim, música composta em parceria com a irmã, a cantora Serena Assumpção (1977-2016), e uma delicada síntese da fina ironia e versatilidade poética que cresce no decorrer da obra. Versos que ultrapassam o cotidiano de Assumpção e parecem dialogar com as principais angústias e experiências de qualquer mulher.

Tentei encontrar maneiras de falar sobre isso [o feminismo] sem recorrer ao ‘lugar de mulher é onde ela quiser’, está tudo bem com essa ideia, mas queria um pensamento que não se resolvesse tão rápido, porque não é tão fácil”, disse em entrevista à Trip. De fato, mais do que um trabalho de essência política, talvez panfletário, Taurina é um registro marcado pelos instantes. Trata-se de uma obra quase descritiva, como se Assumpção costurasse diferentes cenas, dela própria ou de outras mulheres, durante toda a execução da obra.

O mais curioso talvez seja perceber como todos esses elementos se revelam ao público em meio a pequenas metáforas. Do relacionamento instável em Amor de Vidro (“Nosso amor é feito de vidro / Meia dúzia de cervejas que tomamos num boteco ali na esquina“), ao uso de referências gastronômicas em Caroço (“Tua panela, velha, tá vazia / Não cabe mais minha tampa“), Pastel de Vento (“Pastel de vento, silêncio no meio / Receio meu coração dentro / Nada de recheio no recreio“) e Receita Rápida (“Quem na massa põe a mão / Quem é o forno ou a forma, quenta / Quem dá forma de coração“), essa última, originalmente composta pelo pai, Taurina chega até o público como uma obra que exige ser saboreada e desvendada.

Completo pela inserção de um time seleto de colaboradores e amigos próximos de Assumpção — entre os convidados, nomes como Céu e Thalma de Freitas, também parceiras no projeto Negresko Sis, Tulipa Ruiz, Liniker e os Caramelows e Ava Rocha —, Taurina encanta na mesma proporção em que parece provocar o ouvinte. Um jogo de ritmos e fórmulas instrumentais que distanciam o trabalho de um resultado óbvio, reflexo da interferência ativa do músico Beto Villares, produtor convidado a traduzir musicalmente o banquete poético e experiências detalhadas pela cantora.

 


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