"Tempo dos Mestres"

Fabiano do Nascimento

Ano: 2017
Selo: Now-Again Records
Gênero: Folk, Jazz, Experimental
Para quem gosta de: William Tyler e Baden Powell
Ouça: Oya Nanã e Louva-a-Deus “Mantis"
Nota: 8.5

Resenha: “Tempo dos Mestres”, Fabiano do Nascimento

Mesmo que o nome entregue a origem brasileira, Fabiano do Nascimento está longe de ser um personagem conhecido por aqui. Nascido em 1983 na capital do Rio de Janeiro, o estudante de piano clássico e teoria da música acabou mudando-se no começo dos anos 2000 para a cidade de Los Angeles, Califórnia. Um cenário aberto ao experimento, novas descobertas e encontros com diferentes músicos locais, todos apaixonados pela música latina, ponto de partida para o primeiro álbum de estudo do artista, o regional e curioso Dança do Tempo (2015).

Com a chegada de Tempo dos Mestres (2017), trabalho que conta com distribuição pelo selo norte-americano Now-Again Records, Nascimento delicadamente amplia os próprios domínio instrumental, costurando décadas de referências e temas regionais sob uma manta jazzística. Ambientações acústicas que se completam com a forte interferência dos músicos Ricardo “Tiki” Pasillas (bateria, percussão), Sam Gendel (saxofone soprano) e as vozes complementares de Thalma de Freitas e Carla Hasset.

Claramente inspirado pela rica cultura musical do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, o registro que conta com produção assinada pelo músico Luther Russell passeia por diferentes cenários e territórios sem necessariamente fixar residência em um gênero ou conceito específico. Instantes em que Nascimento incorpora a dramaticidade e força do cancioneiro popular, caso das inaugurais Planalto e Baião, ou mesmo composições de temática festiva, caso da reinterpretação de Brasileirinho, com suas quebras e curvas sempre torneadas.

De alma jazzística, Tempo dos Mestres carrega nos instantes de apego religioso uma forte conexão com a cultura africana. É o caso de Oya Nanã, música que se abre para a forte interferência do saxofone de Sam Gendel, lembrando em alguns aspectos a mesma atmosfera explorada por Kamasi Washington no intenso The Epic (2015). Em Ja Que Tû, música originalmente composta por Naná Vasconcelos (1944-2016), um espaço aberto para a inserção dos vocais. Versos cíclicos, hipnóticos, como um mantra que se conecta à minimalista base percussiva da canção.

Mesmo repleto de boas interpretações, caso da memorável Canto de Xangô, música originalmente composta por Baden Powell e Vinicius de Moraes, Tempo dos Mestres encanta e cresce nos instantes em que Nascimento brinda o ouvinte com as próprias criações. É o caso de Louva-a-Deus “Mantis”, música que aproxima o cancioneiro nordestino da música folk norte-americana, esbarrando na mesma riqueza de detalhes que marca o trabalho do violonista estadunidense William Tyler em Modern Country (2016). Um cuidado que se revela na folclórica O Tempo, penúltima faixa do álbum e um perfeito aproveitamento da voz dentro do registro.

Extensão madura do trabalho apresentado há dois anos, Tempo dos Mestres pinta um imenso quadro do sertão brasileiro ao mesmo tempo em que surge perfumado pela novidade e profunda transformação. Perceba como diferentes camadas e texturas instrumentais se escondem ao fundo de cada composição, fazendo do violão de sete cordas comandado por Nascimento o princípio para um mundo de histórias, cenários e sensações que crescem de forma sempre curiosa no interior da obra.

 

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