"Terracorponuvem"

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Experimental, Eletrônica, Ambient
Para quem gosta de: Rio Sem Nome e Tim Hecker
Ouça: Foz (Andança) e Morro (Lumeeiro)
Nota: 8.0

Resenha: “Terracorponuvem”, Sentidor

Recriar a partir da desconstrução. Em um intervalo de poucos meses, o cantor, compositor e produtor mineiro João Carvalho foi do futuro pós-apocalíptico que se apropriou da obra de Tom Jobim em Am_Par_Sis (2017), para as ambientações cósmico-tribais do recém-lançado Terracorponuvem (2017, Independente). Um curioso exercício que encontra na lenta sobreposição dos arranjos, ruídos, melodias, samples e vozes o principal componente criativo para o trabalho sempre mutável, torto, do artista sob o título de Sentidor.

Delicado quando próximo do material apresentado há poucos meses — registro que utilizou de fragmentos do álbum Passarim (1987) —, o trabalho gravado, produzido e mixado por Carvalho na Toca Da Coruja, faz de cada composição um objeto isolado, sempre curioso. Camadas e texturas etéreas que não apenas se distanciam do território explorado em Am_Par_Sis, como sutilmente remontam parte do universo desbravado pelo mineiro nos dois primeiros álbuns como Sentidor, Dilúvio (2015) e Memoro Fantomo / Rio Preto (2016).

Exemplo disso está na ambientação psicodélica que orienta o ouvinte durante toda a execução de Morro (Lumeeiro), sétima faixa do álbum. Ao mesmo tempo em que resgata parte da atmosfera acolhedora dos primeiros discos, Carvalho lentamente convida o ouvinte a se perder em um ambiente consumido pela instável repetição dos elementos, resultando um delírio que cresce a cada nova audição. Uma estrutura ora orgânica, ora eletrônica, como se o músico brincasse com o propositado uso de pequenos contrastes.

A principal diferença de Terracorponuvem em relação aos últimos registros de Carvalho como Sentidor está na forte utilização de temas tribais e construções rítmicas que funcionam como mantras. É o caso de músicas como Rio de Dentro (Chiaroscuro) e O Rio Que Se Vê De Fora (Abridouro), canções em que o produtor mineiro parece remixar o canto de uma tribo indígena. Retalhos sonoros organizados em uma estrutura cíclica, como se Carvalho buscasse hipnotizar o ouvinte, proposta que segue até a faixa de encerramento do disco, Clareira (Bardo).

Provável síntese da obra, Foz (Andança), décima canção do trabalho, cresce a partir da colisão de diferentes fórmulas instrumentais, como se Carvalho fosse capaz de revisitar e, ao mesmo tempo, ampliar os próprios domínios. Em um intervalo de quase nove minutos de duração, violinos sujos, colagens percussivas, batidas assíncronas e camadas de ruídos assentam no interior da faixa, resultando em um verdadeiro labirinto de ideias. Uma permanente fuga do óbvio, conceito evidente em músicas como a mutável Pt. 2 e Terracorponuvem (Fuga).

Quarto álbum de inéditas de Carvalho em menos de um ano — há poucos meses, o mineiro lançou o segundo disco pelo projeto Rio Sem Nome —, Terracorponuvem mostra um artista em constante processo de transformação e busca pelo reinvento. Em um intervalo de apenas 50 minutos, tempo de duração da obra, o quarto álbum do Sentidor vai da euforia ao caos de forma sempre provocativa, instigante, como se o produtor mineiro desviasse a todo instante dos principais problemas que tornam uma obra do gênero arrastada.