"TFCF"

Liars

Ano: 2017
Selo: Mute
Gênero: Experimental, Noise Pop
Para quem gosta de: No Age e HEALTH
Ouça: Coins In My Caged Fist e Cred Woes
Nota: 7.5

Resenha: “TFCF”, Liars

Passada a divulgação do dançante Mess (2014) e a debandada dos músicos Julian Gross e Aaron Hemphill, Angus Andrew teve de tomar uma difícil decisão sobre o futuro da Liars: seguir como único membro do grupo e investir em um novo formato ou silenciar de forma definitiva o projeto nova-iorquino? A resposta chega nas canções do experimental TFCF (2017, Mute), primeiro registro da nova fase da banda e um precioso indicativo da mente insana do veterano da cena alternativa.

Produzido a partir de captações caseiras, samples e bases instrumentais que Andrew há muito compilava no próprio computador, TFCF — uma abreviação para Theme From Crying Fountain —, segue em uma estrutura abstrata e irregular, como ideias arremessadas em uma tela em branco. Pouco menos de 40 minutos em que o artista brinca com a lenta desconstrução da própria identidade musical, convidando o ouvinte a provar de diferentes sonoridades a cada nova faixa.

Exemplo disso está na dobradinha formada por Face to Face with My Face e Emblems of Another Story. Enquanto a primeira composição segue em uma atmosfera densa, suja e ruidosa, lembrando o material testado pelo Liars em obras como Sisterworld (2010) e WIXIW (2012), ao esbarrar na canção seguinte do disco, ambientações minimalistas bagunçam a experiência do ouvinte. Cantos de pássaros, vozes submersas e captações de campo que resume o conceito abstrato de Andrew para a obra.

Livre de possíveis brechas, TFCF segue como o registro mais hermético da carreira da banda, excluindo todo e qualquer traço de um som acessível ao grande público. Mesmo Cred Woes, música escolhida para representar o disco como canção de trabalho, parece livre costuras melódicas, crescendo em meio a um labirinto de pequenas incertezas. Pouco mais de três minutos em que Andrew desconstrói o conceito robótico do último disco de forma propositadamente instável, torta.

Mesmo dentro desse cenário guiado pela permanente ruptura criativa, inegável é o esforço de Andrew em trabalhar a obra dentro de uma estrutura crescente, ritmada. Enquanto The Grand Delusional, Cliché Suite e demais faixas posicionadas na abertura do disco transportam o ouvinte para dentro de um território marcado pela composição etérea dos elementos, ao avançar pelo disco, TFCF se transforma, deixando crescer músicas como Coins In My Caged Fist, faixa que mais se aproxima de clássicos como Drum’s Not Dead (2006).

Passagem direta para um ambiente desvendado em essência apenas por Andrew — conceito reforçado logo na estranha imagem de capa do disco —, TFCF joga com as possibilidades em um ato curioso, provocando o ouvinte a todo instante. Trata-se de uma clara mudança de direção dentro da rica discografia da banda, como se mesmo no universo de pequenos experimentos que orientam o projeto desde a estreia com They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top (2001), o músico norte-americano fosse capaz de ir além.