"The House"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: Pop Alternativo, Syntphop
Para quem gosta de: Frankie Cosmos e Blood Orange
Ouça: Country, Goodbye e Find Me
Nota: 7.5

Resenha: “The House”, Porches

Um “esforço consciente de minimalismo e honestidade“, foi assim que o cantor e compositor Aaron Maine definiu a estrutura do terceiro e mais recente álbum de inéditas do Porches, The House (2018, Domino). Produto do desejo do músico norte-americano em “documentar sensações imediatas“, transportando para dentro de cada composição a mesma atmosfera do dia em que vozes e instrumentos foram gravados, o sucessor do elogiado Pool (2016) chega até o ouvinte como uma obra de instantes, talvez instável, mas não menos hipnótica e atrativa.

Produzido a partir da lenta inserção de sintetizadores, batidas eletrônicas, guitarras sempre climáticas e vozes, o trabalho de 14 faixas — parte expressiva delas composta por vinhetas ou fragmentos que detalham parte das experiências que deram vida ao disco —, carece de tempo até ser apreciado integralmente. Peças espalhadas em um cenário de pequenas incertezas, conceito que acaba se refletindo diretamente em toda a base poética que serve de sustento ao álbum.

São versos marcados pelo existencialismo do eu lírico, proposta evidente em Leave the House, By My Side e Now The Water; versos que refletem a melancólica passagem do tempo, como em Wobble, e Goodbye, além de canções sufocadas pelo amor e o peso inevitável da separação. Exemplo disso está na amarga composição de Country, faixa que olha com pesar para um passado ainda recente de Maine — “Quando o ar bateu no meu rosto / E cheirava a verdade / Eu vi você no lago” —, remontando acontecimentos e memórias entristecidas.

Dividido entre a agitação e o parcial silenciamento, The House, assim como o trabalho que o antecede, vai de um ponto a outro sem necessariamente parecer confuso ou irregular. Um registro que abraça as pistas, como o flerte com a House Music indica em Find Me e, principalmente, na colorida Anymore, porém, a todo instante regressa ao mesmo ambiente intimista que a inaugural Leave The House parece originalmente explorar. Vem daí o estímulo para a formação de peças sensíveis como Goodbye e a atmosférica Anything U Want, faixa de encerramento do disco. Instantes em que a poesia de Maine cresce de maneira explícita.

Dentro desse ambiente tão diverso, pontuado pela inserção de vinhetas e temas marcados pela “aleatoriedade”, difícil não lembrar do último álbum de Blood Orange, o excelente Freetown Sound (2016). De fato, muito do que orienta o presente trabalho vem diretamente da obra de Dev Hynes, artista com quem Maine vem colaborando nos últimos anos. Das vinhetas ao uso minucioso da voz, tudo remete ao som produzido pelo artista inglês. Creditado como um dos parceiros na realização do disco, Hynes se junta a nomes como Alexander Giannascoli ((Sandy) Alex G), Maya Laner (True Blue), Kaya Wilkins (Okay Kaya), Bryndon Cook (Starchild & the New Romantic), Cameron Wisch (Cende) e o experiente Chris Coady (Beach House, Slowdive, TV on the Radio), esse último, responsável pela gravação do álbum.

Misto de continuação e busca por experiências talvez inéditas, The House estabelece um curioso diálogo com o material apresentado em Pool, porém, a todo instante se permite provar de novas sonoridades. Enquanto a essência dos anos 1980 parecia orientar grande parte da obra de Maine há pouco mais de dois anos, hoje o músico nova-iorquino brinca com as possibilidades, convidando o ouvinte a provar de uma obra tão intimista e particular quanto diversa em suas interpretações.