"Thinking Out Loud"

Ano: 2018
Selo: Balaclava Records
Gênero: Indie, Folk
Para quem gosta de: Jennifer Souza e Transmissor
Ouça: Fire Walks With Me, Hazy e Moons
Nota: 8.0

Resenha: “Thinking Out Loud”, Moons

A beleza explícita nas canções de Thinking Out Loud (2018, Balaclava Records), segundo e mais recente álbum de inéditas do Moons, exige tempo ser totalmente absorvida pelo ouvinte. Imerso em ambientações minimalistas, pianos, arranjos acústicos e vozes submersas, sempre vagarosas, cada fragmento do trabalho se revela aos poucos, em pequenas doses, como se o mineiro André Travassos, grande responsável pelo projeto, fosse capaz de jogar com os próprios sentimentos, ocultando e revelando segredos a todo instante.

Próximo e ao mesmo tempo distante do som incorporado no primeiro álbum de estúdio do músico, Songs of Wood & Fire (2016), o registro de dez faixas e pouco menos de 40 minutos de duração se distancia do ambiente arborizado de faixas como Golden Sun e Hunting You para explorar um território urbano, sombrio. São movimentos econômicos que delicadamente transportam o ouvinte para um ambiente à meia luz, talvez um clube de jazz.

Exemplo disso está na construção de Moons, segunda faixa do disco. Escolhida para apresentar o trabalho, a canção ganha forma aos poucos, detalhando batidas e arranjos tímidos que servem de complemento à voz limpa de Travassos. “Eu cortei meu coração em dois / E te dei metade para que você pudesse sentir“, confessa. É quase possível visualizar o músico no centro de um palco escuro, iluminado apenas pela luz de um holofote e o tremular das sombras dos companheiros de banda.

É justamente essa forte interferência de diferentes nomes da cena mineira que distancia Thinking Out Loud do material apresentado em Songs of Wood & Fire. Junto de Travassos, músicos como Bernardo Bauer, Digo Leite, Felipe D’Angelo, Guri Assis, Jennifer Souza, Leonardo Marques, Rodrigo Garcia, Rodrigo Viana, Thiakov, Tiago Eiras e Victor Magalhães. Um time seleto de instrumentistas e vozes responsáveis por ampliar a doce melancolia da obra, preferência que em nenhum momento prejudica o aspecto intimista reforçado no álbum anterior.

Inspirada pela narrativa surrealista de David Lynch em Twin Peaks, Fire Walks With Me, terceira faixa do disco, talvez seja a faixa que melhor sintetiza essa mudança. Ao mesmo tempo em que preserva os temas acústicos de Songs of Wood & Fire, perceba como um universo de pequenos detalhes se espalha ao fundo da canção. Camadas instrumentais que ultrapassam o simples encontro entre voz e violão, cuidado que também se reflete na lenta montagem da faixa-título do disco e, principalmente, na amarga In a Silent Mood, música orquestrada pela voz forte de Jennifer Souza.

Curioso, Travassos se permite arriscar durante toda a execução do trabalho, flertando com a obra de Lou Reed, como na poesia torta e descritiva de Hazy, ou mesmo nos ruídos que invadem a derradeira In Love We Trust, música que parece dialogar com a boa fase do Câmera, antigo projeto do cantor. Instantes de breve ruptura que não apenas distanciam o álbum de um resultado previsível, como indicam o caminho apontado pelo Moons para os futuros projetos.

 


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