"Todo Mundo Vai Mudar"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Pop Rock, Indie Pop
Para quem gosta de: O Terno e Maglore
Ouça: Todo Mundo Vai Mudar e Sinta-se Em Casa
Nota: 8.5

Resenha: “Todo Mundo Vai Mudar”, Dingo Bells

Relacionamentos humanos, a incerteza do dia a dia e pequenos conflitos pessoais. Em Todo Mundo Vai Mudar (2018, Independente), segundo e mais recente álbum de inéditas do grupo gaúcho Dingo Bells, todos os elementos apresentados durante a produção de Maravilhas da Vida Moderna (2015) são delicadamente resgatados, porém, dentro de uma nova estrutura. Um olhar curioso sobre a contemporaneidade e as ações tomadas pelos indivíduos, conceito reforçado em cada fragmento poético que invade o trabalho.

Extensão radiofônica do material entregue há três anos, o registro de dez faixas mostra o cuidado da banda — formada por Diogo Brochmann (guitarra e voz), Felipe Kautz (baixo e voz), Rodrigo Fischmann (voz e bateria) —, em explorar um som cada vez mais acessível, pop. São rimas descomplicadas que se amarram ao uso de elementos da soul music brasileira e internacional, como um diálogo com a obra de Hyldon, Tim Maia, Stevie Wonder e demais veteranos do gênero.

Exemplo disso está na quarta faixa do disco, Tudo Trocado. Enquanto os versos brincam com o uso de pequenas contradições — “Tudo trocado / Todos os lados / Redondos / Quadrados / Tanto Faz / Briga para ficar tudo bem / E chora para secar o rosto” —, musicalmente, a canção ganha forma e cresce. São metais, pianos e ambientações nostálgicas que apontam para o início dos anos 1970. Um som colorido, grandioso, como um clara evolução do pop detalhado em Eu Vim Passear e parte expressiva do repertório testado no disco anterior.

Nada que se compare ao cuidado da banda na faixa-título do disco. “Um dia todo mundo vai mudar / Jogo as certezas no fogo e deixo queimar“, entrega a letra da canção, ponto de partida para a inserção de vozes em coro, guitarras e batidas quentes que convidam o ouvinte a dançar. Um hit pronto, feito para grudar logo na primeira audição, estrutura que se repete na também pegajosa Sinta-se em Casa, sétima canção do álbum. Pouco mais de três minutos em que o trio resgata o mesmo pop-rock descomplicado da conterrânea Vídeo Hits em Registro Sonoro Oficial (2001).

Interessante notar que mesmo entregue ao pop, Todo Mundo Vai Mudar está longe de parecer uma obra rasa, descomplicada em excesso. Prova disso está no som minucioso de Ser Incapaz de Ouvir, segunda faixa do disco. Entre guitarras claustrofóbicas, lembrando o trabalho dos britânicos do Foals em Total Life Forever (2010), a letra sóbria da composição discute a comunicação ruidosa e o desencontro entre os indivíduos — “Nem mastiga e diz que está alimentado / Fala e mata a fome de ser escutado / Seu problema é não sentir-se satisfeito / Mesmo devorando o mundo desse jeito”.

Mesmo pontuado por instantes de maior recolhimento, como em Meias Palavras, faixa que poderia facilmente ser encontrada em qualquer disco d’O Terno, Todo Mundo Vai Mudar mantém firme a atmosfera dançante e ritmo frenético reforçado durante toda sua execução. Um som deliciosamente contrastado, efeito da poesia melancólica/crítica que sutilmente invade os versos, porém, esbarra no colorido instrumental que rege o disco, revelando ao público um pop rock perfeito que segue em uma estrutura dinâmica até o último segundo.

 


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