"Tônus"

Ano: 2018
Selo: Independente / Natura Musical
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Boogarins e Bruna Mendez
Ouça: Amor Distrai (Durin), Nova Nova e Ossos
Nota: 8.5

Resenha: “Tônus”, Carne Doce

A vulnerabilidade talvez seja a principal marca do terceiro e mais recente álbum de estúdio do Carne Doce, Tônus (2018, Independente). Do momento em que tem início, em Comida Amarga (“Eu cato as sobras / Dos teus sinais / Eu sou a sobra / Junto com as sobras“), passando pela construção de faixas como Nova Nova (“Te deixando apaixonado / Te deixando só a dor / E aí você vai entender / E aí, enfim, se vê em mim“), cada fragmento do registro reflete com naturalidade a entrega e melancólica exposição do eu lírico, conceito que vem sendo aprimorado pelo grupo goiano desde a estreia com o homônimo disco de 2014.

A diferença em relação aos demais trabalhos da banda, principalmente o último, o provocativo Princesa (2016), está na forma como o grupo parece lidar com menos. Da bateria econômica de Ricardo Machado, passando pelo baixo pontual de Aderson Maia, às guitarras de Macloys Aquino e João Victor Santana, também responsável pelos sintetizadores cósmicos que recheiam o disco, tudo se projeta de forma contida. Movimentos sempre calculados revelam a delicada veste instrumental que protege e cerca os poemas assinados pela vocalista Salma Jô.

Mesmo nesse parcial recolhimento, Tônus cresce como um trabalho grandioso no significado de suas canções. Da poesia lasciva de Amor Distrai (Durin) (“Porque eu só gozo assim / Em alto e bom som“), parceria com Fernando Almeida Filho, o Dinho, da Boogarins, ao canto amargo de Ossos (“Os cachorros dos outros não são tão divertidos / Já os nossos ex são todos iguais / Quase todos os pais vão direto pro inferno / E muito poucas mães não são santas normais“), uma das mais sensíveis do álbum, poucas vezes antes Jô pareceu tão honesta e entregue na composição dos versos.

Livre do imediatismo e composições talvez catárticas, como Falo e Cetapensâno, do álbum anterior, Tônus é um trabalho que exige tempo até ser totalmente absorvido pelo ouvinte. E essa é justamente a grande beleza do disco. São camadas instrumentais e poéticas que se revelam ao público em pequenas doses, como se o grupo goiano delicadamente ocultasse informações. Sintetizadores e guitarras psicodélicas que flutuam por entre as brechas de Irmãs, mas que se dissolvem na montagem de Brincadeira, um flerte com o R&B torto de Conan Mockasin e Unknown Mortal Orchestra, além, claro, do romantismo agridoce em Já Passou, composição de base acústica que lembra Elis Regina nos instantes de maior recolhimento

A propositada mudança de direção, no entanto, não impede o surgimento de músicas enérgicas, por vezes íntimas do material produzido no álbum anterior. É o caso da faixa-título do disco. Enquanto a voz de Jô cresce desmedida (“Um corpo jovem / Aquele tônus / Aquele brilho / Um corpo pronto pro verão / É ofensivo ao coração“), batidas e guitarras se projetam de forma crescente, sempre acompanhadas pela linha de baixo destacada de Maia. A própria faixa de encerramento do trabalho, Golpista, ganha forma aos poucos, se espalhando em meio a temas percussivos que rompem com qualquer traço de morosidade.

Passo seguro em relação aos antigos trabalhos da banda, Tônus mostra o esforço claro do Carne Doce em se reinventar dentro de estúdio. Em um território sombrio, como um olhar curioso para a própria alma, versos e melodias se entrelaçam sem pressa, revelando as angústias, medos e o isolamento de qualquer indivíduo. Trata-se de uma obra guiada pela completa minúcia de seus atos, cuidado que se reflete em cada poema ou fração instrumental e segue até a imagem de capa do disco, uma fotografia intimista produzida em conjunto pelo casal Salma Jô e Macloys Aquino.

 


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